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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Cloud Atlas em português.

O livro é de 2004, mas eu li-o em 2005, numa versão de bolso, paperback, como se faz no mercado literário inglês. Descobri-o ontem traduzido e editado em Portugal, com uma capa desmaiada, que não faz justiça ao virtuosismo da escrita de David Mitchell.

O senhor escreve bem e tem uma capacidade notável para assumir as vozes mais diversas, atravessando séculos e geografias, nacionalidades e estilos. Por vezes resvala para o pastiche, eventualmente, mas de um modo geral embala-nos e sacode-nos o cérebro, na mudança de um registo para o outro.

No livro seguinte de David Mitchell, aliás, ele assume notavelmente uma voz adolescente e autobiográfica em doze pequenos contos ligados pela progressão dessa primeira pessoa, um Adrian Mole deste século. Chama-se "Black Swan Green".

A isto some-se a preocupação formal na estrutura, desenhada com cuidado, história dentro de história, atravessando concentricamente o tempo.

Lembro-me de ouvir Bob Wilson dizer uma vez numa conferência como desenhava os seus espectáculos a partir de coisas tão simples como simetrias numéricas ("este espectáculo terá uma progressão em sete partes, seguida de uma resolução em outras tantas"), um pouco como imagino a composição de algumas peças musicais de Bach, por exemplo.

É claro que o formalismo neste caso (como no de Bach), ajuda a enquadrar a inventividade do texto e aquilo que ele desperta em nós de emoções. E como diz o outro, a inveja é sempre uma forma de elogio.

Não sei se a tradução é boa, espero que sim.