Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Da duração dos vídeos online.

Um mantra repetido infindavelmente por quem trabalha no negócio da Internet é de que as pessoas dedicam cada vez menos tempo a cada pedacinho de conteúdo, a cada esforço de horas, meses ou anos por parte de quem o produz. Se isto é verdade em geral, para o vídeo pareceu tornar-se dogma desde que o You Tube instituiu a "snack culture" como standard do consumo audiovisual na web.

Debaixo desde dogma surgiu toda uma cultura viral do sketch e do clip, que favoreceu coisas como o Saturday Night Live, Daily Show, Happy Tree Friends, Gato Fedorento, Contemporâneos, Bruno Aleixo, etc. etc. Além da curta duração, qual é o elemento comum? Comédia. São quase "anedotas".

A estes somem-se os videoclips de música, os trailers de filmes e jogos, as melhores jogadas, golos, pontos em desporto, gaffes, apanhados e parvoíces e mesmo antes de começarmos a falar da cultura 2.0 já temos milhões de vídeos para ver.

No caso do "User Generated Content" a coisa acentua-se. Quantos utilizadores têm meios, paciência ou imaginação para produzir um vídeo que ultrapasse os cinco minutos? A pilha de clips de pequena duração continua a crescer.

É claro que o sucesso deste universo com uma duração não superior a cinco minutos por unidade gerou um efeito de imitação na indústria, quer exclusivamente online quer, em certa medida, também na televisão. A SIC Radical passa snacks e um pouco por todo o lado na Web começaram a surgir webisódios e outros formatos de séries respeitando sempre a duração curta como dogma. Em Portugal tivemos o T2 para 3, que parte agora para uma segunda temporada obedecendo a todas as premissas acima descritas.

No SAPO, contudo, o pessoal não anda distraído e a segunda série faz um movimento no sentido da televisão, em parceria com a RTP, em compactos de 25 minutos. Mais que isso, está já em rodagem outra co-produção, o "Dez", que embora seja apresentado online em forma de folhetim, tem já episódios de maior duração (dez minutos) e constrói no final um filme ou mini-série de 100 minutos.

E era aqui que eu queria chegar. Vários sinais na indústria e na tecnologia parecem apontar para uma diversificação dos formatos online e para o crescimento da duração dos vídeos que as pessoas estão dispostas a consumir na Internet. Aparentemente e como é habitual, não era um problema de falta de paciência do espectador, era um problema de limitação tecnológica (largura de banda entre outras), de apresentação e interface e de capacidade de produzir e rentabilizar conteúdos.

O New York Times fala disso neste post do blog Bits. São apenas alguns sinais, mas ainda mais interessante é o sucesso crescente do projecto Hulu, onde o conteúdo dominante são séries de televisão, crescentemente filmes, mas numa lógica de plataforma com um site agregador fornecendo os parceiros nos seus próprios contextos de interacção.

Mais ainda, nos últimos anos as séries de televisão tradicionais investiram no sentido contrário da Web, criando arcos narrativos que percorrem temporadas inteiras, se deleitam na complexidade e densidade dramática. Alguém chegou mesmo a dizer que as séries de televisão estavam a substituir o cinema como fonte desse entretenimento mais longo, mais lento, mais profundo.

Em que ponto um e outro movimento se vão encontrar? Em que ponto uma cultura participativa, que tem "toda a cultura do mundo" disponível nas pontas dos dedos se vai encontrar com o auge da narrativa audiovisual, que não se importa de levar o tempo necessário a construir-se, a desenvolver-se, a enriquecer-se?

Não sei, mas quero lá estar.