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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Gregos e Troianos.

É um lugar comum dizer que a Grécia é o berço da democracia. O problema é o que entendemos quando lemos essa palavra. O Nuno levou-me a ler este artigo, que curiosamente só cita a história recente (dentro do meu tempo de vida, pelo menos), mas de repente ocorre-me Homero e Sócrates (o filósofo, não o elegante).

Participo confessadamente de uma certa anomia desiludida que parece atravessar a Europa e desde há uns 35 anos aos poucos se foi instalando no nosso país, que parece muitas vezes um daqueles doentes acamados que olha pela janela sem coragem para se tentar mexer, tais serão as dores.

Quando penso no verdadeiro significado da palavra "democracia", esqueço por momentos a retórica parlamentar, a demagogia economicista, a preguiça e falta do nível intelectual de parte importante dos actores políticos.

Lembro-me de como Jamie O'Neill cruza os 300 com a revolução irlandesa, num dos meus livros favoritos de sempre "At Swim Two Boys", lembro-me de Heródoto e, mais uma vez, de Homero, dos homens e dos deuses, da tragédia e da comédia.

A Grécia é só hoje mais um país periférico de uma União Europeia que vive de uma espécie de lei da gravidade muito própria que, como um buraco negro, tenta atrair tudo a um centro onde nada é visível. Este momento de revolta, irracional, violenta, mesmo que injustificada perante um certo "bom senso das instituições" pode fazer-nos lembrar que a famosa crise em que vivemos em permanência pode tocar-nos a vontade de forma mais profunda.p