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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O blockbuster do Natal.

Há muitos anos atrás, era eu uma "criança" que andava na faculdade, entrevistei António Guerreiro, crítico literário do Expresso, a propósito do mercado da edição de livros em Portugal. Dizia-me ele que em Portugal faltava uma literatura "média", um mercado literário mais de massas, que servisse quem não tem paciência para gastar muitos neurónios a ler, mas nem se importaria de ocupar o seu tempo dessa maneira.

Não era literatura que lhe interessasse, ele que já na altura confessava que, se pudesse, só falava de poesia, mas do ponto de vista da indústria editorial e do próprio mercado de leitores, era um segmento por explorar, que alargaria sem dúvida o número de leitores em Portugal.

Cerca de 15 anos mais tarde, por via da chamada "literatura light" e de autores como José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pintou ou Miguel Sousa Tavares, esse mercado existe. E faço desde já a ressalva que, ao juntá-los, não os comparo literariamente, nem encontro semelhanças entre o que escrevem, assinalo apenas que são três casos que venderam centenas de milhares de livros, no caso do Miguel de um só romance, coisa inédita no mercado português.

Inédita é igualmente a tiragem da primeira edição segundo romance de Sousa Tavares, 100 mil exemplares vezes 600 e qualquer coisa páginas. A semana passada foi capa das três revistas de informação mais lidas em Portugal, a saber Visão, Sábado e Única, do Expresso. Um extracto foi publicado como sobrecapa num diário gratuito e houve notícias nos telejornais. Está em marcha o fenómeno de vendas deste Natal, espero.

Sendo colega de editora, não sou imparcial. Acho que o Miguel deve vender todos os exemplares que conseguir e contribuir o mais que puder para a saúde financeira da Oficina do Livro. A Oficina, aliás, foi pioneira em novas maneiras de fazer e vender livros em Portugal. Ainda me lembro das justificações para apostarem no meu primeiro romance: além de acharem que era interessante e estava bem escrito, era um tema e um "target" que lhes interessava, nocturno, urbano, marginal.

Tudo isto vem a propósito de ontem em Lisboa ter ocorrido o lançamento oficial de "Rio das Flores", o segundo romance de Miguel Sousa Tavares. Nas palavras de um amigo jornalista, com a perspicácia que se lhe espera para dissecar o óbvio, foi o "blockbuster dos lançamentos": muitas câmaras, máquinas fotográficas, caras da televisão, doses industriais de laca e maquilhagem e um número incerto de reais leitores.

Foi engraçado assistir ao circo que rodeia o sucesso e a fama do Miguel; foi engraçado ouvir-lhe a arrogância de quem sabe já poder ignorar esse lado das coisas e assumir uma verdadeira pose de escritor; foi engraçado ouvir um monocórdico e académico Vasco Graça Moura, esforçando-se por se concentrar no que, para ele, é relevante, a literatura.

Bom, bom, foi poder dar um abraço ao Manuel Dias, que foi das primeiras pessoas a dizer-me que sim ou que não, quando eu enviava os meus primeiros textos para o DN Jovem, nos idos anos 80 de glória desse suplemento. E é sempre bom rever amigos.

À saída, perante a recusa do Miguel em dar entrevistas para as televisões, uma câmara com jornalista ao lado entrevistava longamente António Pedro Vasconcelos, se calhar sobre esta coisa toda do que são... os "blockbusters".