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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

"Mansion on The Hill"

– Ena, o “Nebraska” do Springsteen. Em vinil!
– Acho que nunca ouvi, alguém deixou aí.
Pousa as chaves num móvel baixo de fórmica branca, junto à parede.
– Nunca ouviste? Vais ouvir agora!
– Não, não, quero adormecer com a Athayde nos ouvidos.
– Mas é bom.
Soo a criança. Alfredo não sabe se há-de rir.
– Não duvido. É de antes de eu nascer.
Hesito. Sinto ainda a cabeça leve mas talvez mais lúcida.
– Eu tenho de ouvir isto.
Não sei como digo a frase, mas ele parece comover-se. Dirige-se a um gira-discos que tem certamente mais de dez anos e nunca esperaria ver ali e passa-me uns auscultadores enormes e pesados, com um cabo absurdamente longo. Falo com ele já com a minha voz mais distante e abafada pelos grandes meios globos pretos nas minhas orelhas.
– Este álbum era para ser gravado com a E-Street Band. Aliás, chegou a ser gravado em versão eléctrica. Mas eles decidiram editar as demos originais que o gajo gravou em casa. Muito bom.
Alfredo manda-me calar com um gesto que me lembra um filho adolescente a quem o pai envergonha um pouco. Penso em protestar mas depois chegam as primeiras notas roufenhas aos meus ouvidos, a harmónica, a guitarra, a voz.
Na pausa entre “Atlantic City” e “Mansion on the Hill”, apercebo-me de que está ao telefone no quarto. Deixou a porta entreaberta. Só apanho algumas palavras e bocados de frases. Sim e Não. E um “se calhar ainda tomamos mais um copo” que sobressai por causa de uma gargalhada e do seguinte “não, acho que não”. Desliga e volta à sala sem que eu tenha tempo de voltar a pôr os auscultadores.