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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Acabei de ler o Gibson.

Capa de Spook Country de William GibsonTerminei ontem a leitura do mais recente romance de William Gibson, “Spook Country”. Para quem não sabe, William Gibson é um dos mais premiados escritores de ficção científica, autor de clássicos como “Neuromancer” e criador do termo Ciberespaço.

A escrita de William Gibson nem sempre é brilhante e muitas vezes deixa-nos a tentar descortinar os processos mentais do autor ocultos por frases de construção bizarra. As personagens são geralmente secas e sem grande história ou profundidade emocional, mas não é por acaso. As histórias de Gibson, passadas no futuro ou no presente, são sempre uma tentativa de descortinar ordem e intenção num mundo em que a tecnologia e a cultura se cruzam em matrizes de caos e excesso.

Nos seus dois últimos romances (“Pattern Recognition” e este “Spook Country”), Gibson abandonou o futuro e situa a acção no presente, talvez por a actualidade ser hoje tão complexa e questionável como era no passado, o Ciberespaço que Gibson imaginava. Talvez exactamente por esse motivo, a sua escrita continua ferozmente política, no sentido magno do termo, questionando permanentemente o papel do homem num planeta inteiramente mobilizado pela técnica. Mais sobre isso aqui.

Em tempos idos fiz um esforço para cruzar o ciberespaço de Gibson com a filosofia de Ernst Junger. Quer um quer outro olhariam para mim de lado por sequer tentar, mas como exercício intelectual foi interessante. De um ponto de vista mais puramente literário, Gibson é como Douglas Coupland ou Bret Easton Ellis, um dos autores que para mim melhor desliza na superfície da contemporaneidade, picando-a com o seu olhar, em busca de sangue ou sentido.

Em “Spook Country” cruzam-se arte, tecnologia, publicidade, espiões, mais tecnologia, alguma droga, música e... mais tecnologia, levando-nos de Nova Iorque a Los Angeles a Vancouver, no Canadá, onde Gisbon vive. O resultado é um romance de espionagem pouco convencional que nos devolve uma imagem mordaz do mundo confuso em que vivemos. É interessante, mas muito menos do que os que Gibson adivinhava nos anos 80.