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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Café Muller e Traviata

No "Regresso a Barcelona" criei uma encenação imaginária para "La Traviata" de Verdi. Sonhei que todo o primeiro acto se poderia passar num cenário algures entre o Kit Kat Club do "Cabaret" e o Café Muller da Pina Bausch (aqui ao lado em vídeo). Passo a transcrever:

No Liceu, o pano sobe aos primeiros acordes sobre um estrado no meio do palco, cercado de almofadas enormes, quase uma cama, quase um sofá de veludo vermelho. De cima incide um foco único. Em volta, um sem número de mesas e cadeiras, como se estivéssemos num cabaret. No tampo de cada mesa um candeeiro ilumina um ou dois membros do coro. Ao fundo à esquerda, um bar todo em tons de um azul nocturno e subtil. Do lado direito, uma porta rotativa para além da qual parece piscar um néon. Lembra-me o Café Muller, mas as mesas e cadeiras são exactamente iguais à do Café Mompou, onde passei a tarde. Ikea? Alfredo vira-se para mim, nesse instante de reconhecimento, e os nossos olhares cruzam-se em silêncio.
Quando volto a olhar, um novo quadrado de luz se abriu, em cima, numa janela. Clara num camarim, sentada a uma mesa de maquilhagem. Parece tossir para um lenço feito bola numa mão. Antes da abertura terminar, desapareceu. Todo o café se ilumina e agita, gente levanta-se e encaminha-se para o bar, outros entram fazendo girar a porta, ela própria uma dança de luz. A animação acompanha a música e todos cantam,
Dell'invito Trascorsa È Già L'ora. Clara surge enfim de novo, no pequeno palco, envergando um vestido comprido de lantejoulas vermelhas, luvas brancas acima do cotovelo, pestanas ainda mais longas do que as lembro, olhar sedutor.

Todo o primeiro acto decorre naquele cabaret, o Barão é o mestre de cerimónias e para além dos clientes, também os empregados circulando com bebidas cantam, declaram a sua paixão pelo álcool, brindam ao prazer, rodopiam em festa. Clara vai roçando uma camélia branca de rosto em rosto, enquanto passeia entre as mesas, provoca o desejo de todos, mas é Alfredo Germont quem com ela fica por fim, saindo feliz para o que imaginamos seja uma rua nocturna. Bebo mais um gole de whisky. Conto umas dezenas de pessoas em cena, mas só uma me agarra a atenção.