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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Onde está o Wally? A sério... não quero saber.

Estou oficialmente assustado. Tenham um pouco de paciência que já explico porquê.

Apesar de ocasionalmente me ter declarado evangelizador, nunca fui um crente. Nunca acreditei que a tecnologia fosse exclusivamente instrumental, mas antes que, quase como pecado original, continha em si, à nascença, um programa. É verdade que posso decidir não disparar uma pistola e usar a coronha para martelar um prego, mas uma pistola foi feita para ser disparada, da mesma forma que um martelo não serve para enviar mails. Cada manifestação da técnica não é inocente, contém intenção à partida.

A Internet é um exemplo muito interessante disto mesmo. Foi inventada para resistir a um ataque nuclear, usando um modelo descentralizado, e para colocar em comunicação cientistas dispersos geograficamente, tornando-se uma rede primeiro internacional, agora mais global que nunca. Hoje serve para quase tudo e é acessível por um número cada vez maior de dispositivos, cada vez mais pequenos, cada vez mais perto dos nossos corpos. Este em que escrevo, está pousado no meu colo.

Não é por eu poder comprar coisas, conhecer pessoas, ler notícias, expressar-me, escolher um restaurante, ver filmes, trabalhar e todo um rol de coisas, que a Internet deixou de ser uma rede global de comunicação e, consequência natural, um espaço de comunicação e controlo, um ciberespaço, se quisermos. As características fundamentais mantêm-se: dispersão geográfica, controlo distribuído (mas não ausente), topologia em rede (e não em árvore, por exemplo), elevada versatilidade.

É, antes de ser um espaço de comércio ou de interacção social, de comunicação ou de colaboração, uma tecnologia e, quem a “constrói” são, antes de mais, os operários dessa tecnologia, os programadores, técnicos de redes, gestores de máquinas e dos cabos que as ligam, do software e do hardware. E comecei a assustar-me quando estava a assistir a uma apresentação de projectos imaginados e em alguns casos a meio caminho de estarem desenvolvidos por estes operários da Internet.

Eu explico. Os dois eixos fundamentais de definição do que é a Internet (é uma rede de comunicação; está dispersa geograficamente) estão a ser levados às suas últimas (?) consequências nas actuais tendências do desenvolvimento tecnológico. E isso foi mais visível do que nunca nessas sementes de projecto.

O primeiro desses eixos... eu já sabia.

Blogs, Redes Sociais, Vídeos, Fotos, de todas as formas e com todo o poderoso arsenal ao seu dispor, toda a gente quer comunicar, fazer amigos, criar, expressar-se, deixar uma marca no rápido movimento do ciberespaço, ter o prazer de lá estar, mesmo que a tal fama dure quinze segundos em vez de minutos e o público sejam apenas quinze pessoas. Isto coloca problemas, claro. Estamos a construir uma geração para quem a noção de privacidade mudou radicalmente. Os Hi5 deste mundo incitam ao desaparecimento da privacidade. O repto é simples: mostrem tudo do que são, como são, o que querem e encontrem as pessoas certas, para as coisas certas, sejam elas quais forem.

Com isto eu posso viver. Embora estejamos a adolescentizar o mundo (perdoem-me o neologismo) ao centrá-lo sobre a importância da opinião dos outros, ao transformar tudo em comunicação e auto-apresentação. Vai ser um mundo com graves problemas de auto-estima, sempre em busca do reconhecimento, perante os pares ou perante o mundo.

O segundo problema é diferente e passa pela geografia pela proxémica, pelo espaço em geral.

É que a Internet está a deixar de ser uma coisa de computadores pousados em secretárias e presos à parede por cabos, para passar a estar em todo o lado, de todas as maneiras possíveis e imaginárias. E isto quer dizer que um telefone deixa de servir apenas para eu telefonar aos meus amigos, pode servir para eu descobrir em que rua de Lisboa eles estão. Um site pode deixar de servir apenas para eu descobrir um livro de que gosto, mas em que prédio mora a pessoa que mo pode emprestar. E que em vez de vadiar pelo Bairro Alto de copo na mão, posso saber em que bar está aquela pessoa com quem me apetecia falar. Será que poderei saber onde estão aqueles com quem não me apetece cruzar?

Estas eram algumas das ideias dos operários.

Bom, eu não estou a dizer que a geo-referenciação é uma coisa má à partida, apenas que estava na natureza de uma tecnologia que era uma rede geograficamente distribuída e ia chegar mais cedo ou mais tarde, como forma de nos fazer a comunicação e controlo chegar ao bolso, literalmente. E sei que há mais telemóveis que computadores em Portugal. Há mais telemóveis que televisões! Os portugueses gostam de trazer a sua tecnologia consigo e de se manter comunicáveis. É verdade. O que eu me pergunto é se é nesse mundo que eu quero viver.

Porque afinal de contas... o que me apetece é escrever livros. E ouvir música. E ver filmes. E ler livros também. E um destes dias, finalmente... desligar a máquina.

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