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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

"Ah, eu rio de me ver tão bela neste espelho..."

Li há uns anos dois livros que me despertaram curiosidade em relação a uma figura que nunca me tinha chamado particular atenção, a da “diva” de palco. O primeiro livro foi “Bel Canto” de Ann Patchett, em que uma estrela da ópera é feita involuntária refém numa embaixada e a sua música acaba por servir de fio condutor dramático a um belo relato das relações humanas e dos seus limites. O segundo foi “In America”, de Susan Sontag, em que a personagem principal é actriz e não cantora, mas para todos os efeitos estamos a falar do mesmo universo.

Quando eu era criança, a imagem que tinha das estrelas de ópera era Bianca Castafiore cantando vezes sem conta a Ária das Jóias do Fausto de  Gounod para atormentar o Capitão Haddock nos livros de Tintin. Lembro-me de ver Elizabeth Schwarzkopf ensinar um jovem a cantar a ária do catálogo do Don Giovanni de Mozart na televisão por essa altura e a imagem parecia-me colar-se perfeitamente ao que tinha em mente: uma senhora de meia idade, nariz no ar e voz poderosa. Hoje a ideia da diva de ópera como matrona foi substituída por uma nova geração de estrelas que em nada ficam a dever às de cinema e televisão.

Um dos mitos sobre a vida de Maria Callas é que quando decidiu emagrecer, perdeu capacidade vocal e a sua carreira definhou. É contudo a imagem de uma Maria Callas elegante ao lado de Onassis que sobrevive nos media e na nossa memória. E parece-me apropriado, visto que a palavra Diva é italiano para Deusa e as Deusas que veneramos hoje em dia são necessariamente elegantes e belas, mais próximas de uma Mimi de La Bohème do que de uma Valquíria de Wagner.

Cecilia Bartoli, Angela Gheorghiu, Natalie Dessay são algumas das divas que hoje preenchem o imaginário e os ouvidos dos amantes de ópera no mundo todo. A Bartoli está frequentemente nos tops explorando a história do género nos seus CDs de luxo, como “Opera Proibita” e “Maria”, uma homenagem à primeira das divas, Maria Malibran. Angela Gheorghiu casou com o brilhante tenor Roberto Alagna e estou certo que fazem duetos maravilhosos em conjunto. Aliás, fiel à imagem da diva caprichosa, Angela foi despedida de uma produção de “La Bohème” por ter faltado a dez ensaios. A justificação? Queria ir a Nova Iorque ver o marido em “Romeu e Julieta“.

O caso que mais me fascina actualmente, contudo, é o de Natalie Dessay. Francesa de nascimento, iniciou a sua carreira antes dos vinte anos, novíssima, se pensarmos que a voz atinge o seu potencial máximo por volta dos trinta e tal anos. Não tem sido uma carreira fácil, contudo, e foi já operada às cordas vocais por duas vezes e por duas vezes regressou triunfalmente. Tem já concertos marcados até... 2014. Já tinha feito um post com a sua brilhante interpretação da ária da Rainha da Noite, da “Flauta Mágica” de Wolfgang Amadeus Mozart, mas podemos vê-la e ouvi-la aqui ao lado em “Glitter and Be Gay”, uma ária da ópera “Candide” de Leonard Bernstein, um dos mais brilhantes compositores do século XX.

Bernstein é dos meus compositores americanos favoritos por via do musical West Side Story, de que foi feita recentemente uma edição comemorativa com a histórica gravação de José Carreras e Kiri Te Kanawa (mais uma diva, neo-zelandesa).

“Candide” é uma ópera baseada no texto de Voltaire e “Glitter and be Gay” é uma ária que só uma virtuosa consegue cantar, pois além de exigir uma voz capaz de notas agudíssimas, exige igualmente técnica respiratória apurada (sobretudo para as gargalhadas) e uma coisa que costuma faltar a muitos cantores de ópera... capacidade para representar, entre a desilusão, o humor e o sarcasmo.
Curiosamente é uma espécie de “Material Girl” no tema e deve ser cantada no meio de jóias, um pouco como a ária com que Castafiore atormentava as restantes personagens de Hergé.