Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

"What's this war in the heart of nature?"

Feliz ou infelizmente, nem toda a minha vida profissional é feita da matéria das palavras. Isso dá-lhe diversidade, o que me sabe muito bem, mas deixa-me sempre a sensação de que me encontro à porta de um mundo inteiramente feito de escrita, onde nunca chego a entrar.

Há, contudo, escrita suficiente na minha vida para conseguir ocupar muito tempo com palavras, frases, as pessoas e os lugares que evocam e de vez em quando há frases que me perseguem na imaginação. Alguns que me conhecem sabem que a frase que dá título a este post me persegue desde que a ouvi pela primeira vez. É a frase de abertura do filme de 1998, "The Thin Red Line", em português "A Barreira Invisível", de Terrence Malick, um dos meus filmes favoritos de sempre.

O filme é baseado no romance do mesmo nome, de James Jones, mas isso é quase irrelevante, tão pessoal é a maneira como Terrence Malick agarra os temas e faz tão pessoalmente seus os filmes que realiza. Aliás, não é a primeira versão de cinema desse romance. Existe igualmente um filme de 1964, de  Andrew Marton, que não vi, mas assumo que seja muito mais fiel ao livro e à sua história original e historicamente mais próximo do que foi de facto a Segunda Guerra Mundial.

O que me fascina no filme de Malick é a maneira como um filme de guerra é transformado numa experiência espiritual, com o seu coro de vozes em off, que vão aparecendo e desaparecendo, como se lessem legendas para a beleza das imagens, para o conflito que a frase logo no arranque sugere. É um clássico, em Malick: as imagens de uma natureza intocada confrontam-se com a violência que move a humanidade por um sem número de motivos.

Não há respostas neste filme, tal como não há respostas numa guerra, só fins, que são uma coisa muito diferente. Nunca esquecerei, contudo, essa primeira frase, tal como nunca esquecerei aqueles planos sobre a erva alta subitamente iluminada por um sol escapado de trás das nuvens. Por entre ela, agachados, caminham aqueles homens de espingarda na mão e com eles, pelos olhos de Mallick, toda a humanidade nesses pedaços de carne.