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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Diálogo.

– Deixe-me apresentar-lhe. Este é o meu amigo... desculpe, não me disse o seu nome.
– É teu amigo e nem sabes o nome dele, Art?
– Pagou-me um pequeno-almoço de rei. Frango e cachupa. Logo, é meu amigo. Mas assim de repente, o nome...
Nenhum de nós conhecia Art há menos de vinte e quatro horas.
– Aquiles.
– Como o herói?
– Como o herói.
– Está tudo bem com o teu calcanhar? – E espreitou nessa direcção.
– Caro Aquiles, deixa-me apresentar-te a menina Athayde. Soprano de imenso potencial, será uma diva um dia! Encontrei-a sozinha no cais deserto.
– Clara.
Demos dois beijos na cara. Dois.
– Athayde com agá e i grego?
– Como adivinhaste?
– O teu tom de voz pressupunha alguma arrogância no nome.
– Estive a cantar, talvez seja disso.
– Cantar?
– O Aquiles aqui gosta de ópera! – Interpôs Art. – Gostas de ópera, não gostas?
Não respondi.
– Se preferires deixo cair o agá e o grego do i.
Comprazi-me com a intenção de insolência que continuava na sua voz.
– A menina Athayde perdeu o seu transporte para deixar Lisboa, por isso a convidei para a festa.
– Não sabia que ainda atracavam navios de passageiros nos cais desertos da cidade, pensei que apenas poesia. Ou era um cacilheiro?
Baixou os olhos, cerrados pelas pestanas pretas. Passou a tonta entre nós. Lembro-me de ela passar como uma nuvem carregada de chuva. Art seguiu-lhe o rabo com o olhar.
– Era um avião. Só depois de o deixar partir decidi que devia contemplar uma última vez o rio.
– Uma última vez?
– Sim, tenho novo voo daqui a – olhou para o relógio – sete horas.
– Posso perguntar para onde?
– Barcelona. – Respondeu Art pousando-lhe a mão no ombro.
– Turismo?
– Estudo e talvez trabalho.
– Ah, uma emigrante.
– São só três meses... – De novo Art a substituiu na resposta.

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