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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Sobre Barcelona.

No "Regresso a Barcelona" existe um livro dentro do livro, o guia da cidade que Aquiles está encarregue de escrever. Já no "Em Silêncio, Amor", tinha esboçado uma história dentro da história, "As Três Bruxas de Truro". Aqui, contudo, o guia fica-se em fragmentos. Coligi aqui abaixo, aquilo que poderiam ser notas e parágrafos dispersos rascunhados por Aquiles nos seus blocos e cadernos.

 

Inevitável sonhar contigo hoje.
Barcelona amanhece ventosa e tudo nela parece por isso mais nítido. O vento lança em fuga o pó e o lixo disperso que máquinas de diversos tamanhos tentam sugar obsessivamente dia e noite. Motoretas ruidosas que me acordam, pequenos tractores, grandes camiões a horas inconvenientes. Por muito que façam, não dão à cidade a nitidez com que um pouco de vento a varre.
Não me lembro de estar em Barcelona em silêncio, seja qual for a hora. Há sempre um eco distante que percute nas paredes e soçobra nas varandas. É contudo provavelmente verdade de todas as grandes cidades que nunca dormem. Barcelona talvez...
Não me lembro de haver senão tristeza subterrânea na minha vida. Um rio de tristeza, um rio de lágrimas ensurdecedor. Não, um mar. A tristeza vai aquecendo na superfície e começa a evaporar quase sem dares por ela. De repente é uma nuvem negra imensa, chuvas, ventos ciclónicos e tomba sobre ti no teu pequeno barco. Tu perguntas: isto não era só um oceano tropical e a tristeza uma corrente profunda? Acabas a ir pelos ares.
Com todo este ruído, como conseguir sequer conversar?
As Ramblas vibram já de passarada barulhenta e turistas pasmados tagarelando em frente a homens estátua, à espera que lhes roubem a carteira ou tirem uma foto. Há carros, lambretas, motas a sério, todos com buzina, um brado sem tino, um ocasional polícia. Louve-se os homens estátua, parecem ser os únicos que não fazem barulho. Americanos, italianos, holandeses, franceses, espanhóis e portugueses, claro. Há portugueses em todo o lado. Além de grupos acidentais de sul-americanos. Esses talvez sejam imigrantes recém-chegados. Passa-lhes o ímpeto turístico quando tiverem de penar à procura de sustento na cidade dos prodígios. Poucos japoneses, anoto.
Sinto-me cercado. Precisava de ser um homem-bomba para libertar algum espaço. São milhares, gordos de calções, crianças com trela, mulheres de chapéu, bêbedos com camisolas de futebol de todos os clubes do mundo que param em frente aos quiosques para comprar mais uma. Já aqui tinha estado num domingo? Há índios a tocar Beatles em flauta de pã ligada a amplificadores de má qualidade. E pequenos geradores na berma a somar-lhes barulho. Grupos de três ou quatro jovens que dançam acrobaticamente ao som de hip hop vomitado de ghettoblasters enormes.
As Ramblas são um rio lamacento de gente sem destino, sem direcção, tantos os que sobem como os que descem, derivam para as ruas laterais, voltam à grande corrente, enfrentam os escolhos. Pelo meio, aqueles que têm realmente alguma coisa para fazer tentam ser peixes, descobrir atalhos na contra corrente, escorregar entre os diálogos eternamente repetidos em todas as línguas. “Vamos ali?”; “Espera, o (inserir nome) ficou para trás”; “Aquela loja tem um ar giro”; “Que máximo, aquele!”.
Viro à esquerda no Carrer de Bonsuccés apesar de estar a poucos metros do fim da Rambla. Procuro as ruas mais estreitas, a sombra, os ecos mais distantes, uma ou outra loja de música talvez. Em frente a um pequeno largo (não mais que quatro árvores a roçar as fachadas e umas cadeiras com gente), três arcos em pedra distraem-me a curiosidade. Atravesso o do meio e entro numa praça maior.
Do lado nascente é um edifício único com arcadas semelhantes às por onde cheguei, paredes pintadas cor de tijolo e janelas regulares, tudo geometricamente arrumado, apesar das lojas e de um outro sem abrigo. Numa das janelas, um anúncio de uma imobiliária, “Se alquila”.
O lado poente é mais honesto, com edifícios irregulares no desenho das fachadas e número de andares, terminando no que deve ter sido uma fábrica e é agora uma série de lofts de grandes janelas envidraçadas e parede caiada.
Vou entrando na esperança de alguma magia escondida, apesar das motas estacionadas, das portas metálicas de enrolar grafitadas, o mais vulgar que há em Barcelona. Ao meio, um parque infantil e meia dúzia de grandes árvores numa geometria desorganizada e chão de areia. Ouvem-se crianças e pássaros pequenos e só distante o resto das coisas. Em volta, árvores de tronco mais fino, uma guarda de honra à majestade das outras, mais idosas.
Ao fundo continuam as arcadas e um café com mesas na rua aconchega-se na sombra certa. Ao aproximar-me, apercebo-me de que são três estabelecimentos separados.
Barcelona é uma cidade com alguma coisa para toda a gente. Os consumistas têm lojas e mercados para todos os preços; os amantes de música têm todo o tipo de concertos e salas de espectáculos, numerosas lojas de discos; os fãs de desporto têm futebol, motas, carros, ténis, os melhores do mundo; os amantes de arte têm Miró, Picasso, Gaudi e uma cena cultural contemporânea vibrante; os gourmets têm tapas em tascas soturnas ou requintados restaurantes; os que se querem perder têm toda a espécie de labirintos; os engatatões têm mulheres e homens bonitos para os gostos mais audazes ou mais comuns; os carteiristas têm todos estes distraídos com as suas paixões e aquele a quem o coração for partido, tem a Pedrera, o teleférico de Montjuïc ou as eternas obras da Sagrada Família de onde se suicidar.
A diferença primeira entre a Catalunha e Portugal, Barcelona e Lisboa parece ter sido enunciada com clareza por um amigo meu que falava já nos braços de Baco, copo de Martini na mão. Uma vive virada de costas para a outra. Da maneira óbvia, claro, uma sobre o sítio onde Tejo e Atlântico se confundem, a outra sobre o Mediterrâneo. Mas é mais que isso.
Barcelona sempre viveu para o futuro, Lisboa para o passado. Numa e noutra isto não é preto e branco, apenas um espírito que permanece. Nem sequer é necessariamente uma coisa boa ou má. É apenas uma maneira de ser, como as pessoas são nisto também diferentes. O meu amigo aliás, falava de pessoas, fui eu que me lembrei de como isso se podia aplicar às cidades.
Para mim, não é um juízo de valor. Muitas vezes temo tanto o futuro quanto lamento o passado. Pudera eu ser imóvel como um farol, contemplando o tempo todo e tomaria uma decisão. Nessa impossibilidade, declaro o meu amor por ambas as cidades.
É um amor condicional, veja-se, pois tanto lamento as aberrações de uma como da outra. O orgulho catalão causa-me tanta alergia como a saudade portuguesa. Todos os nacionalismos e seus derivados me causam uma irritação cutânea que procuro coçar enfiando os dedos no couro cabeludo.
Estranho, não é? A música sempre foi uma arma de patriotas e revolucionários. Por algum motivo temos hinos oficiais e não romances oficiais e quadros oficiais. E tantos dos compositores que canto lutaram com música pelo seu país.
Apaixonei-me e fui para Barcelona, mas tenho a noção de que o mais normal seria o contrário. Chegar primeiro, apaixonar-me depois. Raras são as pessoas que não se apaixonam por esta cidade entre o perfume antigo do Mediterrâneo e a modernidade pós-industrial. Comigo foi como disse. No dia a seguir a apaixonar-me, viajei para Barcelona e sendo boa portuguesa que sou, trouxe mais alguma saudade na bagagem. E achei que o Mediterrâneo tinha menos perfume que o Atlântico.
Nada disto foi dramático ou permanente. Apenas na Ópera e no grande Teatro, tudo tem de ser final e definitivo, para que depois de terminada a função, possamos voltar a palco e agradecer. Enquanto estamos vivos, viajamos tão facilmente entre lugares como entre pessoas, presentes e passadas, sempre curiosos sobre o que esconderá o próximo passo. Assim é a cidade.