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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Cultura e Memória.

Tenho andado a ouvir o "Em Busca das Montanhas Azuis" do Fausto Bordalo Dias, um dos grandes discos do ano passado.

De "Por este rio acima" a "Crónicas da terra ardente" foram doze anos e tivemos de esperar mais dezassete pela conclusão da trilogia que Fausto baseou na "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto. E a música traduz perfeitamente essa aventura, espanto e sedução da descoberta. Não há a limpidez cega dos heróis aqui, mas sim homens comuns, um olhar aberto sobre o mundo, uma voz ainda firme, inteligência e variedade musical. Tudo em Fausto nos devolve o encanto que sempre reconhecemos na sua música, levando-nos ainda um pouco mais longe.

 

 

Sempre gostei de História e sempre achei a História e a memória que implica fundamentais para a definição do que somos e do que seremos. Sempre que ouço o Fausto, fico a pensar em como é triste não termos uma versão em cinema ou televisão desse grande livro de aventuras, cru e moderno, que é a "Peregrinação".

A isto junta-se a notícia de que o ICA está sem dinheiro para financiar o cinema e a DGArtes não tem dinheiro para financiar a criação artística. É claro que o próprio Secretário de Estado da Cultura não é grande crente no papel do Estado e acha que o património é mais coisa turística. Que memória ficará destes anos? A Casa dos Segredos? Telenovelas? Concursos? Futebol? Os dez programas mais vistos na televisão portuguesa o ano passado foram jogos de futebol.

Até a CIA, que há-de perceber tanto de arte como eu da vida sexual das abelhas, percebeu a importância de apoiar a arte contemporânea, de estimular o seu desenvolvimento e presença. Nós continuamos a contar trocos e a não perceber em que estamos afinal a investir.

Parece que estamos condenados a um futuro sem memória, logo sem história, sem passado e por consequência, sem presente e sem futuro. Tudo isto me deprime.

Vou só ali ver mais uma vez as magníficas fotografias de Tony Gleaton sobre a herança africana nas Américas. Está mesmo disponível integralmente um número da revista Contact Sheet dedicado ao seu trabalho. Abaixo, dois exemplos. Primeiro El Amado de Afrodita - El Ciruello, Oaxaca, Mexico, 1990 e de seguida Un Hijo de Yemaya - Hopkins, Belize, 1992.