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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Do amor ao cinema.

Domingo é dia de Óscares e qualquer motivo é bom para falar de cinema. Os Óscares em si são um evento que, como diria o outro, podemos dividir em três metades: espetáculo televisivo, indústria de entretenimento e amor ao cinema. Como é natural na matemática, uma das metades vai ter de ficar de fora. O ano passado tivemos direito aos piores apresentadores dos últimos anos, uma espécie de anúncio dois-em-um de sedativos e estimulantes. Este ano volta Billy Crystal, há alguma esperança.

Do que eu gostava de falar mesmo, contudo, é do amor ao cinema. Pela sua natureza, a indústria de entrtenimento está em permanente mudança, mas a sensação de crise, aquele pânico contido que pode ou não descambar em histeria de massas, é mais aguda em alguns momentos do que outros. Este é um dos momentos em que há mais dúvidas: por um lado, com a digitalização global do consumo de filmes, com a pirataria, com os novos meios de produção quase baratos, quase domésticos, o 3D, o HD, o VOD, tudo catalisadores da mudança tecnológica; por outro, com a sistematização de uma cadeia de valor cada vez mais complexa em que tudo é marca, tudo é franchise, merchandise, marketing, janelas de chegada ao mercado, mercados globais, estreias planetárias, reboots remixes. Livros, séries, outros filmes, mas tambem bonecos para crianças, jogos, atrações em parques de diversões, boas e más ideias, projetos muito, pouco ou nada rentáveis, tudo pode ser um filme.

Também não era disso que eu queria falar. Os dois favoritos a ganhar a estatueta de melhor filme são filmes sobre o cinema: "Hugo" de Martin Scorsese (na imagem) e "O Artista" de Michel Hazanavicius. É verdade que todos os filmes são filmes sobre o cinema, fazem parte do cinema, constroem ou destroem parte de uma herança, um futuro. Estes dois só o fazem de maneira mais evidente e mais visível para o público em geral, o que contribui para o seu sucesso. Há também "A Árvore da Vida", o meu favorito pessoal, mas isso é outra conversa.

No fundo, no fundo, este texto era só para dizer que vou ver os Óscares, quanto mais não seja por ter sido educado no amor ao cinema. Um amor que começou na sala escura, continuou na televisão, na cinemateca, no computador. Onde houver um ecrã e um filme, eu vou ver. E como consta que a própria cerimónia se vai esforçar por ser uma declaração de amor, fica aqui a minha.

José Mário Branco - Inquietação

A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

 

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

 

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

 

Há sempre qualquer coisa que está p'ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

 

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

 

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

 

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

 

Há sempre qualquer coisa que está p'ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

 

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

 

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda