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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Processo Revolucionário em Curso.

O Eduardo Pitta no seu blogue, justificadamente irritado com o fecho da livraria Poesia Incompleta, terminou o post que fez sobre o assunto com a frase "Se calhar vamos ser todos muito felizes a coçar o cu aos iPads."

Não vamos, é verdade, mas um olhar para a indústria editorial e livreira em Portugal e no mundo, um relance que seja, mostra-nos que está a acontecer uma revolução, como se passou já com a música ou a fotografia, por exemplo.

Um artigo de Winston Manrique Sabogal no El País de 15 de Março falava em "tempestade perfeita" e "mudança de paradigma" (a imagem que encima este post vem daí e é de Quint Buchholz - belo nome).

Nada que o Eduardo não saiba, obviamente. E diga-se que o fecho da livraria do Changuito tem mais a ver com o país que temos, na escala, na cultura, nos hábitos, do que propriamente com isso (mesmo que os iPads sejam um bom símbolo de um certo novorriquismo ignorante). O que eu acho é que, por muito que nos irrite, incomode, sacuda nas nossas paixões e modos de vida, vale a pena olhar para o assunto de frente.

Uma das minhas paixões é o livro, o objeto livro, impresso com tinta em papel, encardenado, colado, cosido. Não vai deixar de ser. Acho que em todos os livros que escrevi, num momento ou noutro aparece essa paixão. No mais recente, aliás, aparece mal disfarçada a Poesia Incompleta e o seu livreirito e nela uma personagem compra "O Livro das Maravilhas" de Marco Polo, como eu fiz em tempos. Mais sobre esse livro (o meu, não o de Marco Polo) muito em breve.

Outra das minhas paixões são as histórias, de uma, vinte, duzentas, mil páginas. Ando a ler o "Parallel Stories" do escritor húngaro Péter Nádas que, na edição americana em capa dura tem 1152 páginas. Que eu saiba não está editado em Portugal. Ando, contudo, a lê-lo na edição digital no meu Kindle.

Não é melhor ou pior do que se a lesse em papel, a história não muda, são as mesmas as letras, as palavras, as personagens, a história. É mais prático, sim, menos interessante fisicamente de vários pontos de vista do que lê-lo em papel. Escolhi o Kindle que me serve apenas para ler em vez de, por exemplo, o iPad, que serve para quase tudo, porque ler exige concentração e não distração. E para distrações já tenho motivos e dispositivos a mais. Além de ser muito mais barato, claro.


O meu próximo livro "Virá a morte e terá os teus olhos" (cujo título é precisamente um verso, neste caso de Cesare Pavese) não terá edição em papel, mas apenas em e-book, para Kindle e em formato ePub (Apple iPad/iBooks, Nook, Sony Reader, Kobo, e a maior parte das apps de e-leitura, incluindo Stanza, Aldiko, Adobe Digital Editions).

Em primeiro lugar porque nestes tempos difíceis, a minha editora de sempre achou que os meus livros não vendiam o suficiente para justificarem mais um investimento (pouco tempo depois o meu editor Marcelo Teixeira abandonou-a também ele). Sendo a Oficina do Livro uma chancela da Leya, mais ninguém no grupo me poderia editar, o que exclui para aí metade do mercado à partida.

Em segundo lugar porque nenhuma outra editora parece disposta a investir para além dos círculos da celebridade que regem a edição em Portugal neste momento (o da grande celebridade da cultura popular, o da pequena celebridade da cultura literária e editorial), sobretudo neste momento de "tempestade perfeita".

E assim me decidi a editar-me em formato digital, responsável por tudo. Acredito na minha escrita e não me apetecia deixar um livro guardado numa qualquer arca. É ainda um percurso cheio de escolhos e dificuldades e tenho muitas dúvidas sobre as recompensas, mas a mudança nunca me assustou verdadeiramente e o meu day job sempre me habituou à inovação. A ver vamos. Mais novidades em breve.


Virá a morte e terá os teus olhos de Luís Soares está apenas disponível em formato de livro eletrónico:

Para comprar em formato Kindle clique aqui. Está disponível na Amazon de outros países.

Para comprar em formato iPadNook, Sony Reader, Kobo, Palm ou outros, clique aqui.

Em qualquer dos casos, poderá fazer download dos primeiros capítulos sem pagar, para ajudar na decisão da compra.

Escopofilia.

Diz o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa:

 

escopofilia
(grego scopos, -ou-, que observa + -filia)
s. f.
1. [Psiquiatria] Desejo patológico de se exibir ou ser observado pelos outros.
2. [Psiquiatria] Prazer sexual que advém da observação de órgãos ou actos sexuais.

 

Diz a Wikipedia em Língua Inglesa:

 

Scopophilia or scoptophilia, from Greek "love of looking", is deriving pleasure from looking. As an expression of sexuality, it refers to sexual pleasure derived from looking at erotic objects: erotic photographs, pornography, naked bodies, etc.
Alternatively, this term was used by cinema psychoanalysts of the 1970s to describe pleasures (often considered pathological) and other unconscious processes occurring in spectators when they watch films. The term was borrowed from psychoanalytic theories of Jacques Lacan and Otto Fenichel.
Critical race theorists, such as Bell Hooks, David Marriott, and Shannon Winnubst, have also taken up scoptophilia and the scopic drive as a mechanism to describe racial othering.

 

Descobri o termo por causa de um projeto de Nan Goldin, que justapunha fotografias dela com outras novas que fizera no Louvre, a partir de quadros famosos, quatrocentos ao todo. Dois exemplos abaixo. Seja como for... acho que é uma condição de que sofro e fico feliz por isso.

Para de te queixar e faz alguma coisa.

O portal SAPO estreou hoje um projeto de que muito me orgulho em que estive pessoalmente envolvido. Chama-se "Para de te queixar e faz alguma coisa" e tem direção da Vera Moutinho, sendo que a cara mais visível do mesmo é a Xana Alves, que entre outras coisas faz rádio.

Primeiro um comentário ao título. Quando o nosso primeiro nos começou a chamar piegas, lembrámo-nos de uma frase que o Miguel Gonçalves Mendes, realizador do "José e Pilar", dizia nas apresentações públicas do filme e que, mais palavra menos palavra, era precisamente "Parem de se queixar e façam alguma coisa". Só para dizer que fazer alguma coisa pode ser muita coisa, pode ser fazer greve, manifestar-se, atirar cadeiras ou cocktails molotovs, fazer programas na Internet, escrever livros, fazer filmes, criar empresas, compor música, pintar paredes... inventem.

Toda a gente tem direito a queixar-se, claro. Mas mais que isso, toda a gente tem direito a agir, dar consequência às palavras, a não se limitar a rir do humor que usamos para lidar com as desgraças nacionais. Queixar-se, fazer um post no facebook, um like num cartoon, ter uma conversa de café, é fácil. Transformar o protestos em ação ou, mesmo quando não é protesto, pura e simplesmente agir, é mais difícil.

A nossa primeira "queixinhas" faz música mas já fez muitas outras coisas. É a Ana Bacalhau dos Deolinda. E se calhar o que ouviu mais vezes foi para "não se meter nisso da música". Das várias coisas que diz, gostei muito quando ela explicou que o curso superior, não tendo nada a ver com música, é uma educação para a vida. Mas vá, vejam aqui abaixo a conversa em formato curto e, se vos interessar, depois a outra mais completa.

 

Breve.

Os dois primeiros versos do poema "Self-portrait at 28" de David Berman são já em si um autorretrato, sem precisarem do poema todo.

 

I know it's a bad title

but I'm giving it to myself as a gift

Larry Clark no The Talks.

Não me lembro se já falei aqui do The Talks, um site de entrevistas curtas, diretas ao assunto e com qualidade. Quase tanta qualidade como os entrevistados escolhidos, cada um melhor que o outro. O mais recente é o fotógrafo Larry Clark, que diz coisas como "I think that almost any part of the human experience is the human experience and why can't we reflect it?". Vale a pena ler tudo e é rápido.

A foto abaixo é Richard Blanshard para a Getty Images.

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