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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Laura Kasischke - Dois poemas.

Laura Kasischke é uma autora americana premiada, vive no Michigan, escreve poesia e romances. O seu livro "The Life Before Her Eyes" já deu um filme com Uma Thurman, mas este post é sobre a sua mais recente coleção de poemas, de nome "Space, in Chains". Ganhou o National Book Critics Award na categoria de poesia e tem um Rothko na capa ("Number 8", 1952). Que mais podia eu querer.

Aqui abaixo, apenas dois poemas, escolhidos de repente, mas que mostram tudo o que a sua escrita transpira: o domínio da língua inglesa, dos seus sons, dos seus ritmos, a riqueza melancólica das imagens, a capacidade para invocar sentimentos, empatia, tristeza, amor, perda, sem nunca cair no vulgar. O segundo poema devia ser já uma canção.

 

Your Last Day

 

So we found ourselves in an ancient place, the very

air around us bound by chains. There was

stagnant water in which lightning

was reflected, like desperation

in a dying eye. Like science. Like

a dull rock plummeting through space, tossing

off flowers and veils, like a bride. And

 

also the subway.

Speed under ground.

And the way each body in the room appeared to be

a jar of wasps and flies that day - but, enchanted,

like frightened children's laughter.

 

 

The key to the tower

 

There was never

There was never

A key to the tower

 

There was never a key to the tower, you fool

 

It was a dream

It was a dream

A mosquito's dream

 

A mosquito dreaming in a cage for a bird

 

It's October

It's October

The summer's over

 

Your passionate candle in a pumpkin's head

And the old woman's hand in this photograph

Appears to be nailed to the old man's hand

 

And the sky

And the sky

And the sky above you

 

Is a drunken loved one asleep in your bed

 

And the tower

And the tower

And the key to the tower

 

There was never a key to the tower I said

 

And this insistence

This insistence

It will only bring you sorrow

 

Your ridiculous key, your laughable tower

 

But there was

There was

A tower here

 

I swear

 

And the key

And the key

I still have it here somewhere

O Quereres.

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

 

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão

E onde queres cowboy, eu sou chinês

 

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

 

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

 

Eu queria querer-te amar o amor

Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

 

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

 

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock?n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

 

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim