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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Suburbia.

"Estacionou numa ainda madrugada de nevoeiro, num canto suburbano e desconhecido da cidade, um canto dobrado, invisível quase, desse mapa que julgava conhecer tão bem, tão longamente. Estava atrasado mas não mais que dois minutos. Tantos anos depois continuava obediente ao credo de pontualidade do pai. Saíra com tempo de sobra para descobrir o caminho, perder-se na penumbra lúgubre, reencontrar-se, chegar por fim ali, aquele lugar estranho a dissolver-se na primeira luz esbranquiçada.

Olhou em volta e enumerou o espaço, os seus elementos, prédios altos indistintos, carros, nesgas de relva orvalhada e árvores, uma linha de comboio dupla e silenciosa, mais acima um barranco de casas envelhecidas e remendadas, barracas quase, roupa estendida a secar, janelas que pareciam fechar mal, em tudo um silêncio da hora. Pelos cantos no asfalto, nos passeios, já folhas secas de árvores muito amarelas, começando a acumular-se com o lixo, uma papa na humidade da madrugada.

Um pequeno sobressalto, estacionou e o rapaz não estava na esquina dos contentores do lixo como combinado, anguloso, alto, esperando-o com não mais do que uma mochila de roupa e um sorriso de dentes e sono e orelhas, assim o imaginara. Seria o lugar certo? Esperou. Viu-se no retrovisor, viu as olheiras e o cabelo cansado, uma mancha na pele, outra. Passou um comboio de gente entorpecida. Quinze minutos de atraso e decidiu-se a ligar-lhe de uma cabine telefónica do outro lado da rua, todo o espaço do vidro grafitado com uma caligrafia incompreensível a marcador e lata de tinta.

Tinha adormecido, explicou estremunhado. Demorava uns vinte minutos. Sobe, disse, voz mais certa já. Sobe, estou sozinho. Esperas aqui, não fiques aí em baixo. Número doze, quinto andar, sobe. A insistência não lhe deu oportunidade de recusar. O rapaz desligou. E estava estacionado. E no jipe nada havia para fazer, nem sequer música lhe apetecia, conduzira no silêncio da expectativa. Meteu a máquina digital ao bolso e caminhou nesse fresco que não era já Verão, mas ainda não Outono, uma temperatura de fronteira que lhe arrepiava os braços nus.

Atravessou, passos nítidos no passeio, ressoando nas fachadas arremessadas para ali e para aqui na desorganização da rua, na curva, os caixotes do lixo, os carros estacionados, também eles dormindo na luz azulada das sete. Tudo diferente da sua casa, do seu prédio na densidade do centro. Podia só esperar junto daquela árvore solitária, fumar um cigarro. Podia fotografar a desordem do subúrbio, casas e carros largados na superfície da terra à pressa, sem uma pausa. Não havia tempo para planear, pensar o lugar, pensar a vida, outras prioridades se impunham. Ir trabalhar, ganhar dinheiro, ter filhos, educar filhos, gastar dinheiro, perder de vista os filhos e os seus destinos. Josef sabia como era."


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