Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Livros. "Americana" sobretudo.

O Merriam-Webster Dictionary dá como primeira definição para a palavra Americana a seguinte: materials concerning or characteristic of America, its civilization, or its culture; broadly : things typical of America.

Li "Ten Thousand Saints" de Eleanor Henderson quase de um fôlego, em três dias trezentas e muitas páginas, quase como se fosse uma canção hardcore algures nos anos 80 nova-iorquinos, o lower east side em que se passa parte do livro. É uma história precisamente muito americana, sobre o confronto de culturas e contraculturas, hippies e straight edges, jocks e punks, famílias de todos os formatos e feitios.

Antes, quase tão depressa, mas saboreando com imenso prazer cada uma das suas frases, li "Binocular Vision" de Edith Pearlman. É uma coleção de contos, alguns já com uns bons anos, outros bem mais recentes, todos bons, alguns absolutamente brilhantes. Algumas frases li várias vezes, outras escrevi em mensagens que mandei a amigos. Gosto particularmente daquele subúrbio inventado de Boston, Godolphin. Já lá estive.

Domino muito mal a arte do conto, falta-me a economia narrativa, a precisão nas palavras, o foco. Cada coisa que escrevo parece-me o começo de uma manta que podia desenrolar sobre todo o meu mundo. Felizmente descobri como parar, como contar uma história, mas confesso a minha admiração, a minha veneração pela maneira como Edith Pearlman usa judiciosamente as palavras. Tem a precisão e mistério dos grandes poetas, a clareza temporal dos grandes romancistas, aquela forma de nos fazer perder num tempo que é o de outro lugar e das suas personagens. Em poucas páginas.

Há coisa de um ano li o "A Visit from the Goon Squad" da Jennifer Egan, agora editado em português com o nome "A Visita do Brutamontes" e tradução do Jorge Pereirinha Pires. Diz ela em entrevista ao José Mário Silva que "de certa forma, todos os romances são sobre o tempo" e não podia concordar mais. O dela é muito bom, leiam. Já.

Em ritmo mais lento vou atravessando o milhar de páginas do "Parallel Stories" do Péter Nádas que desdobra cada intenção, cada gesto, cada momento num origami de palavras, um tempo mais lento, uma leitura mais demorada. Talvez meta pelo meio mais um pouco de Don DeLillo, só porque sim.

A fotografia que ilustra este post é de uma das mais conhecidas esculturas públicas de Anish Kapoor e está em Chicago, cidade onde se deram os acontecimentos que justificam que hoje, primeiro de maio, seja Dia do Trabalhador. Por motivos históricos e políticos, não é o caso dos Estados Unidos. Americana.