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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Lisboa mulata.

Lisboa é a minha cidade, por destino e eleição. Destino visto que foi nela que nasci e como qualquer recém-nascido, cheguei cá sem escolha na matéria. Eleição porque em todos os momentos em que coloquei a hipótese de viver ou trabalhar noutro local, escolhi sempre ficar. Ainda agora, quando o país inteiro parece suspirar baixinho pela fuga, insisto em não ir. Se calhar é preguiça, mas isso é outra conversa.

Ontem na Aula Magna houve quase três horas de Dead Combo e a sua música, mas a sua música é quase toda a música e os Dead Combo trouxeram amigos, começando pelo grande Camané, acabando na Royal Orquestra das Caveiras, a saber a Ana Araújo ao piano, o João Cabrita, o João Marques e o Jorge Ribeiro nos sopros e o inexcedível Alexandre Frazão na bateria. A fazer coro, as Víboras do Chiado.

A música dos Dead Combo é o que Lisboa devia querer ser, quando não anda gaiteira a tentar ser Paris ou Barcelona. Escrevi algures que era meia cidade e a outra metade era o Tejo, que ainda por cima é aqui quase mar, entrada, saída, trânsito, vontade de ir e voltar, sons do mundo todo subindo dos cais para os miradouros para inquietar-nos e deleitar-nos, mistura e vistas largas, de becos e vielas para onde o olhar e o ouvido alcançar. Ouvi blues mas se calhar era jazz, um fado que cheirava a morna, boleros, marchas e rock, um assobio que era do Vasco Santana e tudo era imenso, nada era tacanho, provinciano, assim são os Dead Combo. Foi uma festa em tempos difíceis.

Não resisto a deixar aqui abaixo o "Esse olhar que era só teu" que eles tocaram na redação do SAPO há uns tempos. E sim, a guitarra é mulata. A fotografia é da Rita Carmo.