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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Portraits in Dramatic Time

Falarei sobre a lentidão mais tarde, tenho algumas coisas para dizer sobre o assunto, mas este projeto do artista americano David Michalek pôs-me de novo a pensar desde já.

Michalek pegou num grupo variado de artistas, bailarinos e atores (alguns mais conhecidos como Holly Hunter, William H. Macy, David Patrick Kelly, Patti Lupone, Liev Schreiber, Ludovine Seigner ou Alan Rickman - abaixo). Encenou com eles pequenos momentos dramáticos de duração curta, alguns segundos. Filmou-os com câmaras de muito alta definição em câmara muito lenta e o resultado foram filmes de minutos que prolongaram a ação, o drama, nos permitem olhar o seu tempo, o momento, a emoção de maneira diferente. Portraits in Dramatic Time foi apresentado publicamente projetado numa das fachadas do Lincoln Center, fazendo explodir ainda mais a possível intimidade da cena.

Não são temas novos para este artista casado com uma bailarina, ambos exploradores do tempo, do movimento, da emoção. No seu site há um outro projeto que está assinalado como work in progress e tem o sugestivo nome The Joban Fugue, tomando o Livro de Job como ponto de partida numa descoberta multidisciplinar de história e moralidade.

Os vídeos aqui abaixo são o trailer dos retratos em tempo de drama e um exemplo com Alan Rickman.

 

Portraits in Dramatic Time (Trailer) from Moving Portrait on Vimeo.

 

Portraits in Dramatic Time (Alan Rickman) from Moving Portrait on Vimeo.

Êxtase e dor.

Abaixo, ao centro, uma Crucifixão de Antonello da Messina. Pintou três, esta é a de 1454-55. O que acho mais interessante é como nestas cenas religiosas o êxtase se disfarça de dor ou o contrário, não chego a perceber. Parece-me evidente nos pormenores dos dois ladrões.

Ruy Belo - Morte ao meio dia

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer