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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Queer Achilles.

Li no fim de semana passado "The Song of Achilles", primeira obra de Madeleine Miller, premiada com o Orange Prize for Fiction 2012. O tema é claro desde as primeiras páginas, a vida de Aquiles e a sua relação com Pátroclo, voz que narra a história. O território é o da Íliada e estão lá todos, deuses, semideuses, heróis, reis, Odisseu e Menelau, Paris e Heitor, Helena, Tétis, as muralhas de Tróia, Apolo, Ajax, Agamemnon, bom, todos. Não é um romance histórico, obviamente, é um romance sobre um mito e um dos aspetos específicos desse mito, o amor entre Aquiles e Pátroclo.

É objeto da filologia, da história, do estudo clássico, em particular do estudo dos Gregos e da sua civilização, a interpretação de qual era realmente a relação entre Aquiles e o seu companheiro. Apenas companheiros de batalha? Uma amizade de infância? Um bromance, como soi agora usar-se? Ou seria mesmo um amor, uma paixão de adolescência transformada em relação adulta, nesse mundo de violência e honra que era o dos heróis gregos? Um amor grego.

Madeleine Miller é professora de estudos clássicos e demorou dez anos a escrever este seu primeiro livro. Não me parece fácil acusá-la de desconhecimento dos textos originais, das suas diversas interpretações e visões. Escolhe desenhar a relação entre Aquiles e Pátroclo como um amor homossexual, sem margem para discussões. Mas o seu território é o mito, o nada que é tudo, não a exagése história, o seu tom é o da ficção, onde o autor é soberano para dizer o que são, como são e o que querem as suas personagens. O seu triunfo é aproveitar cada elemento do mito de Aquiles para construir a sua história de forma reconhecível e emocionante para um público moderno: a mãe fria e distante, uma deusa pois então, que tenta separar os amantes; as pressões sociais dos pares, dos reis, do povo; o esconder do óbvio por parte do jovem casal, navegando áreas perigosas de preconceito; o despeito de (algumas) mulheres; a hubris, a tragédia, o destino, a redenção.

Para quem nunca leu a Ilíada ou conheceu uma das suas versões "contadas às crianças e ao povo", há mais descoberta no livro e é provável que as voltas e reviravoltas do destino dos protagonistas estejam mais cheios de surpresas. Para quem conhece a história, o mito, de onde ele vem e para onde foi, este mergulho nos olivais e escarpas da Grécia antiga, nos seus mares quentes, no calor sangrento da batalha, é um prazer de uma escrita limpa, sem hesitações, de ritmo inatacável, seduzindo da primeira à última página. Alguém vai traduzir e editar por cá? Ou um "Brokeback Mountain" na Grécia antiga (como lhe chama o The Independent) é demasiado arriscado?