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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Serviço público e RTP.

Não me apetece falar muito sobre a questão da privatização ou concessão da RTP enquanto processo político, até porque acho que um dos objetivos do movimento atual é gerar a maior confusão possível. Há ainda por cima gente bem mais qualificada do que eu para falar do assunto. Tome-se o exemplo de Aarons de Carvalho que gosto de citar por ter sido meu professor.

Atirar milhões de custos e frotas automóveis para a discussão é absurdo, sem contexto, sem detalhe, sem passado e sem futuro. Há uma guerra de informação a decorrer. O Presidente da República mantém-se calado, até porque foi ele enquanto primeiro-ministro quem acabou com a Taxa de Televisão e gerou a espiral de caos no financiamento da RTP, com os resultados hoje claros, que incluem uma taxa reposta entretanto. Coloca-se aparentemente a hipótese de a entregar a um privado. Foi no governo de Cavaco Silva que os custos da RTP dispararam para concorrer com os emergentes canais privados.

Nada disto me deprime verdadeiramente, porque o estado do país tem anestesiado a minha capacidade para a depressão com as notícias que diariamente me aparecem à frente. O que for infelizmente será, quem tem poder para intervir que intervenha, por favor. Por favor! Queria era falar de outra coisa.

Descobri enquanto me andava a informar que temos dos canais públicos e serviço público de televisão mais baratos da Europa, seja qual for o critério: orçamento total, custo per capita, custo como percentagem do PIB, etc.. Isso sim, deprime-me.

Depois olho para a programação da RTP e percebo. No Canal 1 temos concursos, entretenimento barato de fluxo, informação sensacionalista, touradas (!) e ficção que é adaptação de formatos internacionais. No Canal 2 temos mais cultura, sim, mas também muitas séries americanas, infotainment a fazer-se passar por documentário e a programação de qualidade muitas vezes remetida para as horas tardias e envergonhadas. Nem sei como já não temos futebol.

O nosso serviço público de televisão não devia ser uma questão de "poupar nos custos", devia ser uma prioridade absoluta no desenvolvimento da indústria de conteúdos, da cultura, da lusofonia, da ficção, do entretenimento de qualidade. A RTP devia investir na compra de direitos para televisão e na filmagem de concertos (clássica, jazz, rock, pop, tudo o que mereça ser visto e ouvido), teatro, deveria investir em novos talentos, animação, cinema, séries de ficção, documentário, valorização do arquivo, programação para as minorias, educação, cultura (popular e erudita). A RTP devia ser um dos motores de todo um setor da economia.

A RTP não devia ter publicidade, não devia transmitir futebol, nacional ou internacionalmente, não devia ter concursos, não devia adaptar formatos internacionais, não devia concorrer em audiências com as televisões privadas. A RTP devia trabalhar com as escolas, as universidades, os politécnicos, a associações culturais, os teatros, os agrupamentos musicais, a Fundação Calouste Gulbenkian, o Centro Cultural de Belém, a Fundação de Serralves, os Museus, os Monumentos, a Fundação para a Ciência e Tecnologia, as Fundações das grandes empresas, nas iniciativas com mérito que promovem.

A RTP devia investir na formação, na escrita de guiões, na filmagem de ficção original, alguma experimental, outra tendendo para o mais popular. E estou a falar daquilo que pode dar bom audiovisual, já nem sequer menciono por exemplo, a área do livro.

Não quero ser injusto com ninguém. Sei que tem sido feito um esforço em algumas destas áreas. Louvo iniciativas como a Academia RTP, algum do trabalho no online, algum do investimento no audiovisual (por obrigação mais do que por vocação), alguma da programação da RTP Memória, da RTP Internacional. Sei também que o movimento de desinvestimento no serviço público é um mal geral de uma paisagem audiovisual cada vez mais complexa e fragmentada.

Eu não quero o fim da RTP 2, não quero a concessão da RTP 1. Quero dinheiro. Quero dinheiro a sério para limpar a casa de cima a baixo, reduzir os custos operacionais com programação destinada a concorrer com os canais privados e investimento a sério num futuro para a cultura e o entretenimento portugueses, investimento para termos memória daqui a uns anos. Pode ser?