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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Joseph Anton

Tinha prometido a mim mesmo não comprar mais livros este ano. Tenho muito que ler e preciso de poupar. Todos precisamos. Há coisas mais fortes, contudo, e "Joseph Anton" de Salman Rushdie é irresistível. É a memória dos anos de Rushdie vivendo escondido, com o peso da fatwa sobre a sua cabeça.

Ouvi recentemente Rushdie ler "Concerning the Bodyguard" de Donald Barthelme. É um dos muitos maravilhosos podcasts de ficção da New Yorker. O texto não está acessível, mas para ouvir não se paga nada. O conto vale a pena no conteúdo e na forma e os comentários de Rushdie merecem igual atenção. A certa altura ele diz que sim, que os guarda-costas que conheceu se reveriam na personagem de Barthelme.

O que nos leva de volta a Joseph Anton. Joseph Anton foi o pseudónimo que Rushide escolheu, enquanto teve de viver escondido, juntando os dois primeiros nomes de dois escritores que adora, Joseph Conrad e Anton Chekhov.

Tudo isto seria já motivo suficiente para comprar o livro, até porque Rushdie é dos meus escritores favoritos. A mesma New Yorker, contudo, deu a machadada final na minha débil vontade de resistir ao publicar um excerto. É longo e vale a pena ler todo. Abaixo fica um excerto do excerto, o momento em que o escritor revê o filho (e respetiva mãe, sua ex-mulher) pela primeira vez, depois de saber da sentença de morte.


When he got to Clarissa and Zafar's house, the police were already there. "There you are," an officer said. "We've been wondering where you'd gone."

"What's going on, Dad?" His son had a look on his face that should never visit the face of a nine-year-old boy.

"I've been telling him," Clarissa said brightly, "that you'll be properly looked after until this blows over, and it's going to be just fine." Then she hugged her ex-husband as she had not hugged him since they separated five years before.

"We need to know," the officer was saying, "what your immediate plans might be."

He thought before replying. "I'll probably go home," he said, finally, and the stiffening postures of the men in uniform confirmed his suspicions.

"No, sir, I wouldn't recommend that."

 

A escrita na terceira pessoa quase lhe dá um ar de ficção, mas a verdade é histórica (ver o post anterior). A fotografia deste post é de Richard Avedon e veio da New Yorker também. E o livro está já encomendado.

Verdade, mentira, ficção.

Este texto não é sobre a situação política atual. Sobre esse assunto, continuo a achar que há outra gente a dizer coisas que vale a pena ler e ouvir. Até a Manuela Ferreira Leite, of all people, que por acaso um amigo em tempos me disse que era uma pessoa de bom senso condicionada pelas circunstâncias. Este texto é sobre coisas ao lado.

Michael Ondaatje sempre foi dos meus escritores favoritos e dos poucos de que li (quase) tudo. É impossível ler tudo o que um escritor escreve, muito fica sempre apenas para ele. Tudo começou com a adaptação ao cinema de "O Paciente Inglês". Depois fui lendo poesia, prosa, até ao mais recente "The Cat's Table".

No que Ondaatje escreve, duas coisas sempre me tocaram mais que tudo o resto: o lirismo da escrita, burilando frases, colhendo palavras, e uma visão política do mundo, no sentido nobre da palavra, paficista, internacionalista. Ondaatje é ele próprio um cruzamento de oriente e ocidente, norte e sul, quer pela sua biografia, quer pela forma como isso transparece nas suas histórias e na forma como as conta.

"O Paciente Inglês", contudo, como outras, é uma história que tem um contexto histórico real e se inspira numa figura real, László Ede Almásy de Zsadány et Törökszentmiklós, um fascista húngaro que colaborou com os serviços secretos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Nada que se recomende. O romancista pega-lhe no nome, em alguns factos e constroi uma história de amor que poderia justificar alguém fazer as coisas que faz. Muito mais haveria a dizer, mas já lá vamos.

Entretanto descobri também a escrita de Anne Michaels, também ela canadiana, em forma e em conteúdo com muitas semelhanças a Ondaatje. Gostei particularmente da sua poesia e de um romance de nome "The Winter Vault" que tem como contexto a mudança de lugar do templo de Abu Simbel (na foto) por causa da construção da barragem de Assuão no Nilo.

Passado algum tempo, descobri uma conversa entre Terry Rigelhof e Gordon Lockheed precisamente sobre estes dois autores e embora a discussão e a agressividade na abordagem do assunto não me tenham feito gostar menos de Ondaatje ou Michaels, fizeram-me, é claro pensar. Só uma citação: "Michaels is a poet and her prose works, Fugitive Pieces (1996) and The Winter Vault (2009), aren't novels. Not in my books. What are they then? I'd say propaganda – misleading publicity, deceptive information, distorted educational tracts." "That's harsh."

Não conheço suficientemente a literatura canadiana, nem tenho conhecimentos e capacidade analítica suficiente para entrar na discussão, mas vale a pena ler toda a conversa e ficar a pensar sobre um assunto bem antigo, o lugar da verdade histórica na ficção.

E agora sim, entro eu.

Quando entrei na faculdade, fi-lo convencido de que o meu futuro era o jornalismo, de que contar histórias sobre a realidade, procurar a verdade do mundo e dos seus momentos eram missões que me recompensariam pessoalmente mais do que qualquer outra. Depois aconteceram duas coisas: uma, li a "Conversa na Catedral" do Mario Vargas Llosa; outra, numa aula, um professor disse que "o jornalismo não era uma atividade para pensar, mas sim para fazer". E eu sempre gostei muito de pensar. Pior do que isso, sempre gostei muito de inventar. Não podia ser jornalista.

É claro que estes meus pruridos morais não impediram muitos outros jornalistas de achar que a fronteira entre a verdade e a sua manipulação inventiva era uma barreira fácil de ultrapassar com frequência.

Saí da faculdade, aliás, um pouco sofista, achando que se podia dizer, argumentar, inventar quase tudo sobre quase tudo. E pus-me a escrever ficção a sério. Resultaram cinco romances.

Hoje, contudo, neste mundo completamente mobilizado pela tecnologia do espetáculo, pela tecnologia da invenção, da representação sem que precise de existir o objeto representado, parece-me cada vez mais importante perceber onde está a verdade, o que é que a realidade confirma, com a sua olímpica indiferença ao que podemos dizer sobre ela.

Vou continuar a escrever ficção, vou continuar à procura de verdades íntimas e universais, de disparates e sentidos, mas queria só pedir, modestamente, aos que têm ou deveriam ter o ofício da verdade (jornalistas, políticos, biógrafos, historiadores, documentaristas) que se preocupem com ela. Até porque o que resta da história, da memória, é aquilo que contámos, que dissemos, e por muito que goste de ficção, preferia que não fosse tudo inventado.