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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Zapping.

Ao mesmo tempo na televisão: a versão hollywoodesca da guerra de Tróia, o inenarrável Rodrigues dos Santos, o Braga contra o Leixões, Dinacroc vs. Supergator, três meios neurónios de amarelo na TVI, Dancin' Days, o Malato, póquer, moda, Joyce DiDonato a cantar a Cenerentolla do Rossini na Royal Opera House, o prédio do Vasco, Crimes Imperfeitos em italiano, João Soares a falar de economia, barcos à vela, motas, carros... e o magnífico documentário "Um Sítio Onde Pousar a Cabeça" de Ricardo Espírito Santo sobre Manuel António Pina.

A Missão de Bartoli

Esta semana escrevi para o SAPO Música sobre o novo disco de Cecilia Bartoli. Foi isto:

 

Desde os tempos dos três tenores (Carreras, Domingo e Pavarotti) e acompanhando a globalização mediática do resto da cultura e entretenimento, a música dita erudita ou clássica tornou-se, em alguns casos, um fenómeno de massas, capaz de atrair novos públicos, entrar por concursos de talentos (?) a dentro e dar à luz aberrações como os Il Divo.

Nesta industrialização popularizante, alguns verdadeiros talentos musicais têm ganho protagonismo e relevância planetária, levando música mais antiga a ouvidos mais recentes. Cecilia Bartoli é um dos casos de maior sucesso nesta indústria global pop-clássica-erudita. "Cecilia quem?", pergunta-se o ouvido habituado a Gaga, Bieber, Psy e outros que tais. Não era de pop que estavam a falar? Cecilia Bartoli, vende milhões de CDs, vencedora de grammys, com quase 90 mil fãs no facebook.

Deixemo-nos de introduções e provocações. "Mission", o mais recente projeto da mezzo soprano italiana, é a sua primeira incursão no barroco inicial e mais um passo seguro numa carreira brilhante, preocupada em revelar nova música e o seu contexto histórico sem deixar de lado a qualidade da interpretação e a excelência de todos os envolvidos, voz e instrumentos.

 

 

"Mission" é integralmente preenchido com obras do compositor italiano Agostino Steffani (1654–1728), praticamente desconhecido até agora: árias, duetos, interlúdios instrumentais e coros. Quase todas as faixas são primeiras gravações a nível mundial. Bartoli é acompanhada pela orquestra suíça “I Barocchisti”, dirigida por Diego Fasolis. Relevantes são também os quatro duetos com outra estrela da música barroca, o contratenor Philippe Jaroussky.

Steffani é uma figura interessante da história europeia, padre, agente diplomático, bispo até a certa altura, espião talvez, compositor admirado certamente, numa época de disputas políticas religiosas e de cruzamento musical entre os estilos italiano, francês e alemão que dominavam o nascimento do grande barroco, ainda antes de Vivaldi, Handel e Bach. Bartoli professa o seu interesse na figura, que defende como génio musical esquecido, elo em falta na história da música europeia, e como em projetos anteriores, empenha-se na sua revelação.

Sim, o esforço de promoção à volta do lançamento é notável e devolve-me às palavras do início sobre estratégias pop na música erudita. Houve concertos com fogo-de-artifício, edições normais, especiais, em DVD, um romance histórico (da amiga Donna Leon), trailers, webisódios e está na estrada uma digressão. Bartoli entrega-se a tudo isto com dedicação e sentido de humor. Basta ver as fotografias promocionais.

Mais notável e relevante que tudo isto, é a música. E esse é o grande trunfo de Cecilia Bartoli e de "Mission", música brilhante, brilhantemente interpretada, efervescente, dançante, sonhadora, envolvendo-nos em cada momento no virtuosismo da voz e da orquestra que a acompanha. Deixem-se de coisas e vão ouvir, este era o rock e o jazz da Europa de então e a energia e inventividade seduzem qualquer um que seja um pouco menos duro de ouvido.