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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Da mitologia das cidades.

Acabei de ler o "Revolutionary Road" e fiquei a pensar no assunto. Não vi o filme e não vou falar muito da história, até porque não a quero estragar para ninguém - podem continuar a ler. Aquilo em que fiquei a pensar foi na mitologia das cidades. E o desafio do Zé Carlos, candidato do MEP a Lisboa, para pensar que política é ainda possível para esta cidade, deixou-me a pensar de novo.

Em "Revolutionary Road" está muito presente a cidade de Nova Iorque e, fora de campo, a de Paris, mas quer num caso quer noutro, a sua presença é mitológica. Não são cidades reais, são a imagem idealizada de cidades. Nova Iorque é toda vida e agitação, hipótese de liberdade em contraponto com o frenesim inescapável do trabalho. É a cidade dos grande edifícios cheios de engravatados, mas também da cultura, de todas as culturas, da mais erudita à mais popular, de todo o mundo para todo o mundo. Mas... neste contexto específico, demasiado próxima.

Até porque é a Nova Iorque dos anos 50, a Nova Iorque de "Mad Men", saída da guerra para a prosperidade, mas puritana ainda, preconceituosa, com as mulheres presas a casa e os homens ao seu papel bem definido. É a América que vislumbramos em tantos livros e filmes, abrindo rachas para a chegada dos anos 60. Assim de repente, ocorre-me "The Hours" e "Far From Heaven".

 

Um aparte: Cliquem na foto ao lado para a ver em todo o seu esplendor. Foi tirada em 5 de Dezembro de 1933 por Samuel H. Gottscho e mostra os edifícios Rockefeller e RCA a partir do número 515 de Madison Avenue.

 

Aí entra Paris, porque como dizia Rick a Ilsa em "Casablanca", "We'll always have Paris". Esta Paris é a Paris do amor e da cultura, da história e do romantismo, a mesma com que sonham Frank e April em "Revolutionary Road". E aqui entramos na mitologia. Sim, esta ainda hoje é a Paris do turismo, a Paris que nos vendem em fins de semana prolongados, com um salto de avião. A Paris verdadeira, tal como a Nova Iorque verdadeira, são locais duros e difíceis, lutando num mundo global pela integração dos que vêm de fora.

 

As cidades são estas coisas todas, claro, mitologia e realidade, representação, asfalto e pedra. Mesmo Lisboa é muitas coisas diferentes, nesse sentido, mas aqui vou direito ao meu "Regresso a Barcelona". Disse em tempos que uma das coisas que me tinha levado a escrever o livro era perceber por que havia tantos portugueses em geral, lisboetas em particular apaixonados por Barcelona.

Barcelona é a cidade "moderna" de Espanha, a cidade da autonomia e do progresso, da indústria e da arquitectura, uma cidade capaz de se renovar, encaixada entre montanhas, virada para o mar. Um porto de entrada e de saída, cosmopolita e orgulhoso, culturalmente vibrante e comercialmente arrojado. Esta é a mitologia de Barcelona. Para já não falar do futebol...

Lisboa é uma cidade branca aninhada em colinas suaves, ocasionalmente capital, no sentido em que uma capital é realmente exemplo e liderança para um país e um continente, mais frequentemente desorganizada entre a nostalgia de um passado e a dificuldade de um futuro. Para os guias turísticos é pitoresca e barata, uma pechincha em tempos de crise, com Fado, história e comida e... pouco mais. Sim, isso. Mas Lisboa é mais que isso e espanto-me muitas vezes com a cena cultural vibrante da cidade. Só alguns nomes: Fundação Gulbenkian, Culturgest, Cinemateca, Centro Cultural de Belém, Colecção Berardo, ZDB, Fábrica do Braço de Prata, Indie, ExperimentaDesign, BESPhoto, Teatro Nacional D. Maria II, Lx Factory, Offf. E isto foi o que me ocorreu de repente.

Lisboa tem alguns problemas comuns a todas as grandes cidade da Europa, neste momento: fluxos migratórios mal integrados, gentrificação dos bairros mais antigos, subúrbios sem vida nem comunidade. Tem também alguns problemas particulares: difícil convívio entre indústria, cultura, entretenimento e habitação na frente de rio; ruas cheias de buracos e remendos; deficiente conservação dos espaços públicos; rede de transportes públicos pobre e mal integrada; gestão (?) do trânsito muitas vezes incompreensível.

E há a crise actual, claro, que a todas as cidades afecta. Seja como for, Lisboa continua a sonhar ser moderna, em tempos isso talvez quisesse dizer ser francesa, como na cantiga, agora talvez mais como Barcelona, tão perto e...

 

Somos portugueses, quanto a isso não há muito a fazer. Preferimos a grande obra e o efeito fácil ao trabalho árduo e rotineiro que a conservação e a melhoria do espaço público exige. Preferimos o TGV e o CCB e a Expo 98 a arranjar os pisos de todas as ruas e estradas de Lisboa (e não só), a transformar os jardins em espaços comunitários, a manter os passeios limpos. E preferimos votar para as autarquias (sobretudo as grandes) alinhados com preferências políticas e ressabiamentos do momento em vez de ler projectos e programas.

Não sei ainda em quem votarei, note-se. Mas pela originalidade e sinceridade, gostei de ler o programa do MEP para a cidade. Outras coisas no partido não me motivam tanto.

Agora outra preocupação me agita. Tinha começado a ler o "Falling Man" do Don DeLillo e acaba de me chegar às mãos o "Nocturnes", o novíssimo do Kazuo Ishiguro. Que fazer?