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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Lento e sem pressa há-de chegar um Inverno.

São três da manhã do dia 9 de Dezembro. Estão 15 graus em Lisboa. Lento se vai um Outono tardio. O Inverno há-de chegar pachorrento. Ou não.

Talvez isso explique a paciência das árvores, com os seus troncos negros e húmidos. Mostardas e compotas e morangos, ainda verde, mas mangas maduras e pores-do-sol, tudo nas folhas das árvores. Juncam o chão e vão flutuando nas brisas amenas que vêm do Tejo. Mordiscam-nos lá os lábios, mas estão longe de nos roubar o fôlego com frio.

Na semana passada houve manhãs de nevoeiro em que pareceu que as esquinas da cidade não iam nunca ter a sua certeza do costume. Do décimo primeiro andar, um gabinete parecia apenas uma torre de castelo nas nuvens. Mas hoje, a meio da tarde, o sol aquecia os meus braços numa esplanada em frente ao mar.

O Inverno há-de chegar, subitamente. Ou deslizar nas sombras sem quase esperarmos já por ele. Uma criança dormia nos braços da sua mãe, no chão, por entre os passos apressados, os sacos, o Natal. O pedinte do Chiado contava escassas moedas, enquanto o seu órgão electrónico tocava Edelweiss. Tanto dinheiro nestas luzes.

Choveu dois dias talvez, em Novembro. Costumava chover sempre no dia dos meus anos. Ou talvez eu nunca tenha reparado nos dias secos. Lembro-me da noite da consoada sem chuva. Uma da manhã e frio o nosso bafo no ar, voltando, saco de prendas nas mãos, da casa da família, a minha mãe, o meu pai, cada um embrulhado no seu casaco, eu na melancolia da ocasião.

O Inverno há-de chegar. Se não aqui, a algum sítio. Meto-me num avião e vou lá dizer-lhe olá.

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