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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

"Paranoid Park" de Gus Van Sant ou a adolescência de novo.

Gus Van Sant representa um espírito realmente independente no cinema americano. Depois de nos anos noventa ter filmado com Nicole Kidman (“To Die For”) ou no arranque de carreira de Matt Damon  e Ben Affleck (“Good Will Hunting“), voltou às suas raízes com o premiado ”Elephant“ ou ”Last Days“. O seu mais recente filme, ”Paranoid Park“ é mais uma incursão pela adolescência americana.


Não há moralidade no filme de Gus Van Sant. Não há bons ou maus, a polícia não descobre o criminoso, não há castigo, não há mesmo tentativa de justificação, da morte, da vida, da apatia ou da angústia. Mas há redenção, uma redenção subterrânea que luta por fugir ao visível, num mundo dominado pela necessidade absoluta da aparência e da comunicação. Jennifer, a namorada de Alex, quando perde a virgindade, a primeira coisa que faz é telefonar a uma amiga. Alex olha para o tecto e recorda o que lhe ficou desse momento, os cabelos dela e o seu movimento.


Os filmes de Van Sant, quando se movem, com segurança e paciência, no mundo da adolescência, simulam um lado documental que me apetece sempre pôr em confronto com a crueza sexual de Larry Clark. Se ”Kids“ permanece como referência, ”Elephant“ e ”Paranoid Park“ enveredam pelo caminho da poesia com uma intenção no olhar e uma firmeza de propósito que não pode deixar de me maravilhar. Tal como em ”Elephant“, o jovem protagonista de ”Paranoid Park“ parece viver num mundo em que os pais e a família são um elenco secundário ausente do cerne da vida.


Se num momento ou outro existe essa ”tentação do familiar“ como forma de redenção, rapidamente um passeio à beira-mar e um caderno escrito a lápis provam o seu total desligamento da realidade. Tal, de novo, como em "Elephant", são os filhos que parecem tomar conta dos pais e não o contrário e resta aos jovens a mais solitária das adolescências, um percurso interior de busca, onde o rumo é incerto.


Se alguns dirão que este é o filme dos skaters de Van Sant, a mim volta a parecer-me que é de novo o filme do isolamento e da violência, do desligamento e da solidão. É verdade nos longos planos sequência na escola, nos subúrbios ”normais“ e nos subúrbios ”underground“, na desagregação social e no silêncio das conversas. Existe redenção? Alex deita-se no chão em frente a sua casa, esperando que a vida melhore, olhando apenas as nuvens, esperando que a sua amiga borbulhenta e ”alternativa“ o puxe de bicicleta como se fossem apenas de novo crianças sem uma única preocupação séria no mundo.


Uma nota ainda para a banda sonora que, entre outras coisas, re-aproveita e homenageia as composições de Nino Rotta para os clássicos ”Amarcord“ e ”Julieta dos Espíritos“, além de uma belíssima canção de Elliott Smith e de um regresso a Beethoven, que já tinha estado em ”Elephant“.

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