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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Noite Cerrada.

Noite cerrada.
Pela cidade branca mergulhada numa escuridão alaranjada, como marés, como cardumes, as pessoas movem-se, dentro de carros, a pé, alongam-se pela linha da costa, atravessam para a outra banda. Provavelmente nem sabem por que se mantêm acordadas, que paz vai reparar as horas de vigília. Os sítios onde costumam dormir ficam quietos no silêncio dos lençóis por amarrotar. Por ruas estreitas e avenidas largas derramam os seus desejos, aquilo que lhes faz falta. Ao longe há nuvens, ainda, como castelos, de onde os exércitos da chuva observam complacentes a alegria de sábado à noite, mais tarde vão ver-nos como formigas a fugir de um aguaceiro, como loucos a enfrentá-lo. A ânsia do prazer está em todo o lado, mesmo naquele avião a sobrevoar a cidade toda, nos olhares atentos dos seus passageiros, sentados na ponta dos assentos para melhor beberem a cidade e as suas luzes.
Na Kaverna se calhar há gente feliz. A pista da discoteca já abriu, o bar está cheio, as pessoas sorriem, tentam sentir-se bonitas, parecem não ter preocupações. Se as têm, resumem-se a um denominador comum, “como ser ainda mais feliz, como ter ainda mais prazer”. Talvez mais um copo, talvez o olhar fixo daquela mulher ali ao fundo, do homem encostado ao balcão, as pernas da empregada, a música. Se calhar a alegria que destilam é apenas uma nuvem temporária, vai pairar e desfazer-se em breve como fumo de cigarro sobre as suas vidas, vidas com pés assentes na tristeza, infinita, movediça. Mas pode ser que alguma lhes reste agarrada à roupa, quando forem para casa. Pode ser que não se deitem sozinhas e o calor de outro lhes chegue, por entre o amarrotar dos lençóis.

 

in "Aquariofilia"