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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Nocturnos.

Chama-se o novo livro de Kazuo Ishiguro "Nocturnes - Five Stories of Music and Nightfall" e lê-se com prazer, num fôlego ou em cinco. Comprei-o pelo autor e pelo título também, apetite aguçado, pré-encomenda feita na Amazon. Depois de o ler, cinco histórias onde apenas uma personagem transita em duas delas, pus-me a pensar e a sentir esse momento de crepúsculo e, como é costume quando leio coisas de que gosto, várias ideias passaram por mim.

A primeira é simples e mesmo antes de o ler já me tinha ocorrido. É provavelmente o meu momento favorito do dia, esse de nightfall, em que as cores do dia se aguçam primeiro, amenizam depois, a deixar entrar a noite. Nightfall é aliás uma palavra mais interessante que Twilight pelo movimento de queda que encerra. Sobre o assunto fiz aliás há uns tempos um vídeo, um e outro post com fotos e recentemente mais um. Pouco me interessa que lá cheguem por serem fãs do livro daquela senhora dona de casa americana e respectivo filme.

Depois pus-me a pensar em como a palavra "nocturno" tinha entrado na minha vida e lembrei-me de um muito distante verão de 1988 em que li "Os Maias" ao som de Chopin. No meu quarto residia uma aparelhagem antiga dos meus pais, notável por ainda ter leitor de cartuchos, e dos poucos que tinha (uma Turandot, lembro-me), um deles era de Nocturnos de Chopin em Piano. Fui investigar e descobri que tinha sido apenas o século XIX a dar-lhe o tom de melancolia. Um Nocturno era, na sua origem, uma música para ser tocada à noite, em festas por exemplo. Se fosse por aí, ia agora ouvir a Pequena Música Nocturna do Mozart.

Por este mesmo caminho, descobri também que Whistler tinha uma série de quadros "Nocturnos", (um aqui ao lado - cliquem para saber mais) de forte influência japonesa, o que me devolveu rapidamente ao livro de Ishiguro, japonês de nascimento, inglês de pátria desde os cinco anos, coisa bem visível nos seus livros.

Em "Nocturnes", domina o jazz como música, nada de extraordinário. O senhor, entre outras coisas, já escreveu letras para Stacey Kent. Se não ouviram... vão já ouvir. É um jazz sem pretensão, que deriva do Great American Songbook e da bossa nova, o mesmo das histórias nocturnas que aqui me ocupam.

O estilo despretensioso e escorreito eu já conhecia, o humor que oscila entre uma ironia suave e uma comédia quase corrosiva pareceu-me mais acentuado que o costume, a reflexão sobre a natureza da arte e do artista levou-me a temas que já conhecia do autor: a condição humana, o conhecimento do que somos e do que os outros pensam de nós.

São histórias de passagem e de mudança, de turistas e viajantes, de músicos em momentos diferentes da vida mas que em todos os casos nos interrogam como se fossem aquela música que parece de elevador mas se ouvirmos melhor... não é.

O trailer abaixo depois de ler o livro, deixa obviamente de ser um trailer, mas é um resumo interessante a que vale a pena voltar depois de conhecer as histórias. A animação é de George Wu.