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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Lisbeth Salander, a "cyberpunk".

Livre que estou do encantamento dos dois primeiros livros da triologia Millennium e enquanto o terceiro não me vem atazanar o juízo - parece que vai ser editado em Portugal no princípio de Julho com o nome "A Rainha no Palácio das Correntes de Ar" - vou dedicar-me a uma pilha de outros volumes que estiveram em espera enquanto eu devorava as mil e duzentas páginas do sueco.

Vale a pena espreitar as coisas que o José Mário Silva já disse sobre o assunto, até por serem interessantes, mas sobre a personagem que vai emergindo como principal nesta saga inacabada, Lisbeth Salander, apetecia-me acrescentar uns comentários.

Se é óbvio que o tal Mikael Blomkvist é um alter-ego do próprio Larsson, Salander parece mais peixe fora de água em romances policiais, a não ser que lhe apliquemos categorias que vêm mais de um nicho da ficção científica, como "cyberpunk".

Na Slashdot (obviamente), Lawrence Persson diz "Classic cyberpunk characters were marginalized, alienated loners who lived on the edge of society in generally dystopic futures where daily life was impacted by rapid technological change, an ubiquitous datsphere of computerized information, and invasive modification of the human body."

A descrição cola perfeitamente à senhora Salander, dez reis de gente com piercings, tatuagens, uma prodigiosa capacidade de invadir os computadores alheios onde encontra quase toda a informação que procura. Solitária, alienada e vivendo na margem da sociedade? Leiam os livros...

Salander é assim uma heroína da mesma ordem do Case do "Neuromancer" do Gibson e não vejo por que não se lhe possam aplicar as considerações que teci aqui, a propósito desse dito arquétipo de personagem. Note-se aliás que o próprio Gibson foi deslocando as suas histórias mais recentes de um hipotético futuro para um hiper-real presente.

Larsson acaba por nos propor, nas suas histórias, dois caminhos de investigação e desconstrução do sistema, o tradicional jornalístico e o "cyberpunk", e o que me parece interessante é que se deduza do resultado que um não pode sobreviver sem o outro, cada um com a sua ética e prática.