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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Trânsito.

Comecei o meu primeiro livro com a frase "Ninguém conduz em Lisboa". Na verdade era uma espécie de proposta de atitude zen para com o trânsito da cidade, imaginando que nos podíamos deixar levar pelos seus ritmos inconsequentes sem grande stress. Pessoalmente, nunca o consegui fazer.

O trânsito é um fenómeno colectivo, mas em Lisboa em particular e calculo que em Portugal de um modo geral, quase ninguém tem essa percepção quando pega num volante. Por aqui, andar no trânsito tem tudo a ver com o ego, dos que têm a auto-estima mais danificada aos arrogantes com complexo de super-herói.

Não é uma questão de fazer o trânsito fluir de forma a garantir que toda a gente tem uma experiência agradável e positiva - chegar incólume, descansado e a horas onde querem chegar.

É mais uma luta para que eu chegue primeiro, não tanto uma corrida, mas uma fuga. Isto para os que conduzem depressa, mudando de faixa constantemente, perdendo sequer a noção do que é uma faixa, tentando descobrir atalhos, ignorando ou desprezando os outros.

É claro que este tipo de condução gera o movimento oposto, lento, ultra-defensivo, cuidadoso para além do racional, entupindo igualmente.

Conduzir é uma experiência emocional e não racional.

Já tinha observado o fenómeno dos "engarrafamentos fantasma" que mais motivo parecem não ter do que uma espécie de alucinação colectiva e partilhada de que existe uma qualquer conjunção no espaço-tempo que gera ali um engarrafamento.

Cientistas do MIT dedicaram-se a estudar o fenómeno, tentando matematizá-lo para evitá-lo e os resultados são interessantes. Dúvido contudo que a quantidade de variáveis necessárias para tornar mensurável o estilo de condução nacional permitissem um modelo de utilidade prática.

Não, não é um discurso de bota-abaixo nacional, sei que há muito pior e que somos como somos e vamos sobrevivendo com isso. Nem sequer é uma crítica dos "outros", a minha condução é frequentemente irascível e exasperante, tanto para mim como para os meus passageiros. É só... uma constatação.