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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A Rainha no Palácio das Correntes de Ar.

É oficial. Não há mais Stieg Larsson para ler. Acabei ontem por volta das duas da manhã, as 715 páginas de "A Rainha no Palácio das Correntes de Ar" e além das inevitáveis olheiras, o síndrome de abstinência instalou-se bem instalado.

É verdade que thrillers, policiais, livros de espionagem há muitos, uns mais, outros menos inteligentes, uns mais outros menos bem escritos. Fui cliente de gente como o Frederick Forsyth e ainda sou do Le Carré, gostei dos filmes do Bourne e ando a pensar ler os romances originais do Ludlum. Em termos de "blockbusters" literários, nunca ferrei os dentes na saga da senhora Meyer sobre vampiros, mas li os Harry Potters todos e dois Dan Browns (estes últimos para poder dizer mal informadamente, confesso).

O Stieg Larsson segue algumas convenções do estilor policial-espionagem-thriller-blockbuster, com múltiplas linhas de acção cruzando-se, reviravoltas, revelações, intriga, lutas corpo a corpo ou com armas variadas, muita tecnologia pelo meio, etc. etc. Tem algumas qualidades não desprezíveis dentro do género e algumas que lhe dão credenciais do lado da literatura: as personagens, os seus ritmos e motivações são bem construídos, com tempo, sem incoerências muito maiores do que as que são naturais ao ser humano, com qualidades e defeitos. Como é natural os "maus" têm mais defeitos que qualidades, mas os "bons" não são propriamente "fáceis".

Nos três livros publicados, o tempo de introdução é longo, as situações e as personagens que nelas se movem são delineados com cuidado para que tudo possa resultar mais à frente e o vício da leitura instala-se facilmente. É interessante, dir-se-ia quase um trabalho jornalístico de investigação sobre pessoas que não existem.

A isto tudo some-se uma coerência temática notável. O tema é o "abuso de poder" que vai da unidade familiar nuclear, da situação mais íntima, ao estado e às suas instituições. Já falei aqui sobre o facto de existir um lado "cyberpunk" nisto tudo. Se alguém quiser fazer uma tese de Ciência Política sobre como a trilogia Millennium aborda uma certa imagem da Europa Social e das suas hipocrisias, força.

O problema é que o Stieg Larsson morreu. Não há mais. Eram supostos ser dez volumes e ficámos por três. Vai haver filmes, é certo, mas mais calhamaços com as desventuras da Lisbeth, Mikael e restantes, só se alguém pegar no fio à meada, facto não inaudito, mas não necessariamente aconselhável.

Quem ainda não leu, arme-se com os três volumes e parta para férias. Ainda por cima as edições portuguesas são pesadinhas, fazem exercício com os braços.

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