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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Intriga Internacional.

A culpa deste post (indirecta que seja) é do Cálssio que citou a lista de 1001 grandes momentos do cinema da Empire e em primeiro lugar estava "North By Northwest", em português "Intriga Internacional", um clássico de Alfred Hitchcock de 1959. Ora o que se passa é que esse filme é, com elevada probabilidade, o meu filme favorito de sempre.

Digo "com elevada probabilidade" por ter toda a dificuldade do mundo em escolher um filme dos muitos que vi e por conseguir justificá-lo em debate sem terminar com um encolher de ombros amuado como que a dizer "é e pronto!", mas a verdade é que quando me fazem essa disparatada pergunta ("Qual é o teu filme favorito de sempre?"), é o primeiro nome que me ocorre, embora a maior parte das vezes não responda.

Alguns já terão percebido que a mitologia das cidades é coisa que me interessa e a abertura do filme, com Roger Thornhill caminhando Madison Av. fora, acompanhado da sua secretária, rodeado de transeuntes no passeio, roubando um táxi a um incauto descreve-nos perfeita uma Nova Iorque dos anos 50 que Hitchcock filma ainda nas Nações Unidas ou na Grand Central Station com a sua mão de mestre. Se bem me lembro, o próprio falha por pouco a entrada num autocarro.

Depois há os comboios. Gosto de comboios, da sua mecânica pesada e veloz que não admite desvios e desenha perfeitas no mapa linhas de um ponto ao outro. Todo o romance entre as personagens de Cary Grant e Eva Marie Saint nasce num comboio e conclui-se também num, naquele que é certamente um dos mais famosamente simbólicos planos da história do cinema.

Há a arquitectura claro, que Hitchcock filma como poucos. Já falei das Nações Unidas e da Grand Central Station, mas vale a pena mencionar pelo menos a cafetaria junto ao Mount Rushmore e, é claro, a casa de Frank Lloyd Wright (aqui ao lado), encenada perfeitamente na intriga.

Se falarmos de cinema propriamente dito, a construção do argumento é o canone da história de espionagem e retoma temas Hitchcockianos com uma apuramento total (o homem comum preso na intriga). Os diálogos são soberbos, sobretudo a (des)conversação entre os protagonistas. Antes de ver o filme, não fazia ideia de que havia tanto sexo nos filmes populares dos anos 50.

A realização não perdoa, desde os planos filmados como se vistos por Deus, esmagando o homem contra à terra, à famosa sequência do avião no campo de milho, a tal que pôs o filme na lista da Empire e que desde então é frequentemente citada pela cultura popular (menciono Os Simpsons e Family Guy como dois exemplos recentes).

Não vou falar da banda sonora de Bernard Herrmann senão nunca mais saio daqui, vou antes falar do momento em que o filme é realizado.

O final dos anos 50 é o final de uma década em que a Guerra Fria começa a ganhar tracção, a economia americana está em crescimento, a televisão ganha lugar nos lares, o cinema inventa o Cinemascope e tudo se conjuga para desenhar aquilo que anos depois ganhou contornos de uma época de ouro do Estados Unidos da América.

Essa imagem tem sido objecto de exploração recente audiovisual de forma brilhante em séries como "Mad Men" ou filmes como "Revolutionary Road". São interrogações críticas que desmontam a superfície perfeita com o distanciamento que os anos 60, reacção epidérmica e imediata, não permititam.

O que é interessante na construção de "North by Northwest" ou na sua desconstrução, agora que passou meio século é perceber essa imagem perfeita de uma determinada América e das suas obsessões, no perfeito momento em que tinham lugar e sem a distância de olhares mais recentes.

E no entanto... talvez não sejam ainda motivos suficientes para explicar por que gosto tanto do filme. Vão ver.