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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Meio dia.

Quando vivia na sua terra lá longe para trás do sol posto ou na verdade de onde o sol se levanta, aponta vagamente para leste, milhares de quilómetros de distância, quando vivia numa casa que era sua e tinha um carro seu, odiava pombos, que lhe cagavam a pintura do tejadilho e do capô, o parapeito da janela e por vezes até a roupa que a sua mãe pendurava incauta a secar e tinha de lavar de novo. Agora no intervalo de almoço, curto, meia-hora não mais, volta a vestir a t-shirt velha e comida das traças, pintalgada de tinta e cimento, e senta-se à sombra daquele calor todo, na relva verde, a desfazer o cantinho da sandes que é tudo o que levou para comer com uma cerveja de lata que entretanto ficou morna. Atira as migalhas aos pombos que vêm comê-las e avisam mais amigos em voos rasantes de muitos metros e debicam e comem as suas saudades.

Saudades da casa, do carro, da mãe, da t-shirt quando não era desbotada nem tinha buracos e lhe ficava mais justa na carne, para sair sábado à noite e as miúdas olharem e rirem e cochicharem. Agora alimenta-se mal, embora o negue à mãe na chamada a correr na cabine telefónica e a t-shirt fica pendurada da magreza e não tem forças nem dinheiro para sábados à noite. Restam-lhe os pombos de companhia pelo almoço, até porque o seu colega - preto retinto, como nunca tinha visto antes de ter emigrado - encosta-se a uma árvore num estupor transpirado e nem uma palavra, nem um suspiro, até voltarem aos carrinhos de mão, andaimes, martelos pneumáticos e outras máquinas assassinas.

Saudades de um vento frio que agora lhe parece saboroso, que cada um tem saudades do que lhe faz falta pela hora de almoço, quando o corpo deixa de estar todo mobilizado pelo trabalho e vêm os pombos contar histórias de longe, de quando os odiava e havia esperança na vida.

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