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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Na lua.

Se bem me lembro, o "Underworld" do Don DeLillo começa no momento em que os russos chegam ao espaço antes dos americanos e colocam em órbita o Sputnik, com o seu solitário e triunfante "bip bip" em 1957. Lembrei-me disto por motivos evidentes quando li o texto do Tom Wolfe sobre esta espécie de histeria colectiva em torno dos 40 anos passados sobre a chegada à lua dos americanos.

Também me lembrei disso por ter acabado o "Cosmopolis", delirante exercício do mesmo DeLillo na sua eterna busca pela alma americana. É apenas uma alegoria, um ensaio quase, escrito ainda no frenesim de uma nação no meio de uma espécie de cegueira colectiva, em 2003. Mesmo num mundo tão distante do meu quanto é possível ser distante - um über-rich atravessa Nova Iorque na sua limusina como se percorresse uma via sacra dos grandes mitos americanos, o poder, o dinheiro, o sexo, a fama, a violência, a morte, a loucura - a escrita de DeLillo consegue sempre alfinetar-me a alma.

Entretanto vi o Harry Potter, o mais recente, e a propósito dessa como de outras sagas, o FJV disse uma coisa neste post que me ocorreu também, sobre como procuramos desesperados novas "grandes" narrativas. Eu ia mais longe, contudo, nos exemplos. Estamos em época de sagas literárias e cinematográficas, super heróis e seres sobrenaturais, mas também da grande série de televisão com um arco narrativo atravessando temporadas, como se a ficção nos conseguisse de alguma forma iluminar.

Com tudo isso lembrei-me de um professor de faculdade que nos dizia que estávamos sempre em cima de muros, como o Humpty Dumpty e tinhamos de escolher cair para um lado ou para o outro. O problema era descobrir que muro era esse.