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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Publicidade e Televisão.

David Simon (aqui ao lado) tem como crédito principal da sua carreira ser autor daquela que alguns consideram ser a melhor série de televisão de sempre, "The Wire". Numa recente participação num painel no Festival de Televisão de Edinburgo, Simon defendeu que a publicidade matava a televisão ou para ser mais exacto, a capacidade da televisão para contar histórias.

A argumentação faz sentido: a publicidade procura o maior número de espectadores possível, logo o menor denominador comum, tornando-se avessa ao risco; a publicidade quebra o ritmo de qualquer história periodicamente (de 13 em 13 ou de 20 em 20 minutos) impedindo um consistente desenvolvimento narrativo; a publicidade quer é vender os seus produtos e não lhe interessa verdadeiramente a natureza e desenvolvimento do conteúdo a que está associada.

Simon está numa posição extremamente confortável, tem como seu veículo a HBO, um canal de cabo premium que lhe permite (a ele e a outros, como Alan Ball) contar as suas histórias em episódios ininterruptos de 58 minutos. É esta diferença fundamental que levou ao surgimento, neste e noutros canais, de algumas das grandes narrativas televisivas dos últimos anos, como "Os Sopranos", "The Wire - A Escuta", "Six Feet Under - Sete Palmos de Terra", "Angels in America - Anjos na América", mas também algum do melhor entretenimento puro, como "Dexter", "Mad Men" ou "True Blood".

E em Portugal? (pausa para suspiro).

Em Portugal, TODOS os canais têm publicidade, a maior quantidade que conseguirem. Mesmo os canais premium mais caros, os canais Sport TV, têm MUITA publicidade. Nos canais generalistas, a situação é ainda pior. Não há praticamente investimento de fundo em ficção chamada "de stock", que fique, que tenha valor para além do primeiro visionamento. Há concursos, entretenimento em directo, ficção "de fluxo" do tipo telenovela, tudo com muita publicidade e o mais que se conseguir para pagar orçamentos espremidos ao máximo.

A presença de soluções de "soft sponsoring" e "product placement" leva isto mais longe e condiciona o próprio conteúdo entre intervalos, o que resta da ficção, a enquadrar-se nos objectivos e estratégias de comunicação dos patrocinadore.

E isto não é verdade apenas nos canais comerciais, mas também no serviço público de televisão. O risco é mínimo e arrumado num ou noutro projecto por ano, maltratado nos horários de programação, ignorado pelas audiências.

Quando é que alguém vai perceber que, daqui a uns anos, quando alguém quiser ir aos arquivos de televisão portuguesa (os que existirem), vai achar que o país era alguma coisa entre os "Morangos com Açúcar" e o "TGV", por falta de investimento em escrita, criatividade e produção em televisão?