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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

James Gray.

Até há coisa de um mês, só conhecia de nome o realizador James Gray e passava-me ao lado a sua obra. Falha grave, que corrigi vendo em pouco tempo "The Yards", "We Own The Night" e "Two Lovers".

O cinema está cheio de momentos de verdadeiro amor intermediado pela câmara, entre um realizador e um actor ou actriz. Era assim com Hitchcock e as suas louras (ou James Stewart e Cary Grant, já agora), é assim com Almodovar e Penelope Cruz, com Woody Allen e as suas várias mulheres, com David Fincher e Brad Pitt, em "Fight Club", "Se7en" ou "The Curious Case of Benjamin Button". É assim com James Gray e Joaquin Phoenix.

James Gray realizou até hoje quatro longas metragens e está em pré-produção de uma quinta (curiosamente com Brad Pitt, que está em todo o lado hoje em dia). Dessas quatro, em três Joaquin Phoenix tem um dos papéis principais. Mark Whalberg está também em duas, é verdade, começando por "The Yards", que parece um ensaio geral para "We Own The Night", magnífico policial. Mas é em "Two Lovers" que Gray faz de Phoenix o centro.

James Gray tem sido em primeiro lugar um autor, no sentido clássico, no que ao cinema diz respeito, escrevendo e realizando os seus filmes, assumindo por eles toda a responsabilidade. Nota-se, por exemplo, no tema recorrente da família como raiz e como desagregação, no cenário de Brooklyn e de Brighton Beach, em que Mannhattan ganha o seu estatuto exemplar, mitológico e inatingível.

Em "Two Lovers", Gray atinge a maturidade de uma forma curiosa, abandonando um registo de Film Noir, para contar uma história de amor. Digo curiosa, porque quando vi o filme fiquei a pensar se Joaquin Phoenix seria o actor certo para aquele papel, lembrava-me aqueles actores de trinta anos que Hollywood punha a fazer de adolescentes, mas este desacerto está no coração mesmo do filme e do seu brilhantismo. Ver Phoenix e Paltrow trocando mensagens no telemóvel às tantas da manhã, hesitar entre o entusiasmo irresponsável e as dificuldades da vida adulta é provavelmente das imagens humanas mais contemporâneas e adultas que o cinema americano nos deu nos últimos tempos. Não é a tontice do Judd Apatow (que tem os seus momentos, concedo) nem o registo Indie, Folk, simpático que tem feito escola, é um filme urbano, adulto, clássico, de argumento e actores, enfrentando de frente estes novos trintões que se comportam como adolescentes. E as suas famílias não estão ausentes, não são inimigos, não são alienados distantes, não são comic relief, são famílias reais, hesitando como todas entre o dever e o querer que corre no sangue.

"Duplo Amor", em português, ainda é capaz de estar em exibição por aí, mas já está à venda em DVD e Blu-Ray noutros mercados. Já nem menciono os torrents para demonstrar como é fácil encontrá-lo e vê-lo. Façam isso.

O próximo projecto de Gray é radicalmente diferente e leva como nome "The Lost City of Z". Promete ser um épico com Brad Pitt como estrela, mas Gray permanece como realizador e argumentista. Salto para o estrelato? A ver vamos.