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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Rossio, madrugada.

Eu, Art, Edgardo, Aquiles. Os quatro inseparáveis, os quatro mosqueteiros, os quatro da vida airada. Cinco horas da noite, da manhã, segunda-feira. Reparem, diz Art, reparem como a cidade está deserta. Estamos no Rossio, ninguém. Nem um carro. Luzes eléctricas só para nós, como se fosse um palco. Edgardo ri sem motivo, de tudo e de nada, pálpebras de brilho baço, olhos semicerrados. Aquiles bebe as palavras de Art e segura-me pela cintura. Segura-me, aperta-me.

Que calor, diz Art para ninguém. E tira a sua t-shirt. Uma das t-shirts muito velhas, com buracos de traça e a desfazer-se em fios em baixo, junto à cintura, onde lhe vejo o elástico das cuecas acima dos calções de camuflado. Que calor, diz ele. E é verdade, quase uns trinta graus e é aquela hora. Lisboa. Estou farta de Lisboa, abafada, sufocada. Olho em volta e as colinas desabam sobre a minha liberdade. Uma, duas, três...

– Alguém sabe o nome das colinas de Lisboa?

– Todas as sete?

– As Amoreiras são uma colina? Alcântara não tem uma colina?

– Isso é uma invenção para copiar Roma.

– Ouviste, Edgardo, Roma.

Edgardo ri.

– Castelo, São Vicente, onde fica a Igreja do verdadeiro padroeiro da cidade, Santana, do respectivo Campo, Graça ou Santo André, Chagas, onde fica o Carmo, Santa Catarina, do lado do rio e São Roque, onde fica o Bairro Alto.

Aquiles aponta-as todas com o braço direito só, sem nunca me largar, mesmo as que não se vêem daqui. A sua pele é tão quente, a sua respiração queima quando me deixa um beijo no pescoço.

– Estás a gozar. Tu sabes isso?

– Sim.
– Tu sabes tudo?

Art é magro mas não demasiado, conto-lhe clavículas, costelas, mamilos, abdominais, umbigo, aqueles pelinhos que descem do umbigo. Que calor no ar parado. Aquiles abre os braços como a pedir desculpa de saber tanto.

Solto-me. Não num repelão, não sem elegância. Aproveito e solto-me numa pirueta. Tenho um vestido às flores. Quase transparente, de tão leve. Não tenho soutien, que me apertava. Largo os chinelos. Corro poucos metros e galgo a pedra. A água está surpreendentemente fresca e encharca-me a bainha do vestido, trepa por ele acima. Contorno a parte central da fonte. Coloco-a entre mim e eles. Não os vejo. A praça é só minha. Avanço pelas luzes no fundo, uma ribalta só minha. Paro junto a um tritão de pedra, lavo a mão na água que jorra em repuxo. Salpica-me, encharca-me. O tecido cola-se-me à pele. Desço e fico com a cabeça apenas de fora, o meu cabelo espalhado pela superfície.

Art e Edgardo saltam para dentro de água rindo. Edgardo está entretanto nu e grita a plenos pulmões “La dolce vita! La dolce vita!”. Art inicia uma batalha a chapinhar com ele. Estamos na praia, temos dez anos. Estamos no Rossio, temos dezoito anos. Não há vida senão aquela vida, não pode haver. Se mergulhar deixo de ouvir, apenas aqueles sons da água. Nem cantar me apetece. Sinto esse susto, nem cantar me apetece. Se nem isso me apetecer, que mais me resta?

Rodeio a fonte pelo outro lado. Aquiles sentou-se na beira e passeia apenas a mão pela superfície agitada. Parece meditar. Sento-me a seu lado, eu do lado de dentro, ele de fora. Os seus olhos dardejam para os meus mamilos duros, o meu umbigo, a minha cintura, os pelos púbicos que se notam mesmo com as cuecas. Encho a concha das minhas mãos de água e despejo-a pela cabeça dele. Baptizado, beija-me. Beijo-o, agora que a madrugada nos lembra que existe com uma ligeira brisa e me arrepia a pele molhada. Abraça-me de novo. Ali, um de cada lado em silêncio e água, entrego-me, a cabeça no seu ombro. Fecho os olhos.

Um carro da polícia ronda-nos, vindo da Rua da Betesga. Saímos a correr pela Rua dos Sapateiros. Edgardo trazendo na mão a trouxa da roupa, rindo, ainda, nu, saltando para as cavalitas das costas largas de Art que o segura, braços compridos e fortes, pelas pernas. Edgardo não é muito grande, não é muito pesado. Correm assim, como dois miúdos. Eu e Aquiles de mão dada. Só paramos no Largo das Belas Artes.

 

in "Regresso a Barcelona"

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