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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O Encontro com Art

Conheci Art na noite anterior a conhecer Clara, junto ao Beco do Forno, quem desce a Calçada de Salvador Correia de Sá, para os lados de Santa Catarina. Eram umas três da manhã e vinha indisposto de um jantar de amigos perdidos e recuperados no fazer e desfazer de relações mal acabadas. Já nessa altura, ainda por sair da adolescência, tinha dessas coisas. Alguns eram colegas do tempo de escola, outros eram daqueles amigos que fazemos nos primeiros três meses de faculdade e logo nos arrependemos. Sentamo-nos ao lado de alguém numa aula de praxe e arranjamos um amigo de óculos. Nem sei como se misturaram. Um jantar onde nunca deveria ter ido. E os copos no Bairro. Alguém a vomitar e eu a ir embora sem me despedir.

O fresco da noite e o ar húmido tinham-me despertado do torpor da sangria e o som dos meus passos nos paralelepípedos de basalto animava-me um pouco. Quase chocámos, no encontro dos nossos caminhos. Era muito alto ele, olhos abertos, cabelo louro comprido, magro. Parecia quase estrangeiro, quase lhe falei em inglês. Bêbedo, olhei para cima e ri-me da figura. Imóvel nem sequer era muito desengonçado, mas um poste, ali no meio da rua. Não levou a mal o encontrão, a troça. Cumprimentámo-nos, dissemos nomes, estendemos mãos, pedimos desculpa, mas ninguém tinha pisado ninguém, nenhuma mossa, desviámos olhos.

– Eu não estou perdido! – Disse ele sem que lhe perguntasse nada.

– Não disse que estavas.

– Sei sempre para onde é o rio.

Era do norte.
– Para baixo.

– Isso, para baixo.

– Mas estavas com ar perdido. – Dei um passo para me ir embora.

– Estou com fome. – Hesitante em segurar-me pelo braço.

– Isso resolve-se.
Olhou-me de novo.
– Quanto medes?
– De altura?

– Havia de ser de quê?

– Não sei, para aí um metro e setenta e qualquer coisa.

– Gostava de ser mais baixo como tu, para caber melhor nas camas.

Ri-me. Estava também bêbedo. Arrastava as palavras.

– Isso é conversa que se tenha no meio da rua? Estás a engatar-me?

Rimo-nos os dois.

– E também podia ter assim olhos azuis como tu.

Os dele eram castanhos.

– Eu acho que tu me queres engatar.

Rimo-nos mais. Deu-me uma pancada nas costas.

– Não, estava só a pensar roubar-te os olhos.

Falou com ar sério, um pouco psicopata. O cabelo louro caía-lhe para a testa, para o pescoço. Os braços finos escondiam uma força inesperada. Não soube o que responder.

– Mas continuava com o problema da altura.

Abanei a cabeça e olhei para a placa com o nome da rua. Quem seria Salvador Correia de Sá? Ele continuou quando me começava a apetecer que passasse um táxi. Mas isso só lá mais em baixo.

– Amanhã dou uma festa. Tenho umas amigas boas, queres ir? – Soltou uma gargalhada sem me deixar responder. A gargalhada de Art. – Amanhã que é já hoje. Além de que não estava a falar disso, tenho fome a sério mesmo.

– Isso resolve-se, já te disse.

Como começa assim sem mais uma conversa?

– Força, mostra-me lá onde se come a esta hora. Ainda não conheço isto bem.

Tic tac.
– Tu és de onde?

Art era de Espinho. Fora ao Porto umas poucas de vezes em criança mas pouco mais. Nem sequer tinha gostado muito. Fascinava-o realmente era esta cidade e o rio disfarçado de mar de que troçava com afecto. Eu que já nessa altura conhecia muitas cidades com rio, senti ternura por essa dedicação. Tinha vindo estudar para médico mas passava os dias a beber e fazer amigos, disse com nova gargalhada branca de dentes.

– E descobri que sou poeta.

– Quase todos nesta cidade.

– Olha que não...

– Olha que sim. Até... deixa ver... os taxistas.

– Os taxistas escrevem poesia?

– Os taxistas são os favoritos das Tágides!

Quem são as Tágides, perguntou ele.

Foi realmente assim? Não me recordo com precisão. Os nossos passos tinham virado para os lados de São Bento, conduzidos pelos estômagos que roncavam sonoros de fome. Teria eu chegado a jantar? Tanta fome deixava-me na dúvida. Estaria tudo a acontecer? Aquele restaurante atulhado de gente sem interesse, o vómito, a rua vazia. Um rapaz alto parado no meio do cruzamento. Art assegurou-me mais uma vez que estava também esfomeado.

– Mas afinal que estavas ali a fazer?

Encolheu os ombros.

– Indeciso e com fome.
– Não percebi.

– Nunca te acontece, em Lisboa? Quereres ir para todo o lado ao mesmo tempo?

Era doido, desde esse primeiro momento, achei que Art era doido.

– Sinceramente, não.

 

in "Regresso a Barcelona"