Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Avatar.

James Cameron tornou-se num grande sintetizador, em todos os sentidos da palavra. Já tinha sido assim com "Titanic", volta a sê-lo com "Avatar". Com as suas histórias canónicas e convocando a mais recente tecnologia ao seu dispor, invoca imaginários abrangentes e planetários. Com isso, vai empurrando a indústria do cinema e enchendo salas com público.

As histórias continuam a seguir todas as regras. O senhor McKee já usava "Titanic" como exemplo perfeito das máximas que procurava ensinar e fará certamente o mesmo com "Avatar". O percurso do herói, interior e exterior, a sua transformação, o love interest, adjuvantes e oponentes, mentores e conflitos, está lá tudo, à exaustão. Em "Avatar" a resolução, contudo, passa por um deus ex machina bem disfarçado, uma intervenção que resolve o irresolúvel confronto entre arcos com setas e armas de fogo. Mesmo isso, contudo, está devidamente preparado e enquadrado no desenrolar da acção e acaba por ser previsível no seu percurso.

Os filmes de Cameron mostram o seu melhor, contudo, na explanação de ideias abrangentes que polulam no zeitgeist quando ele decide nelas pegar. Mais uma vez, em "Titanic" tínhamos a ideia da América como país mítico, a viagem atlântica como percurso para esse lugar, a tragédia como consequência dessa hubris. Em "Avatar" o caminho é outro, uma espécie de Pocahontas do espaço (o mito, não a história). Temos os colonialistas invasores e exploradores, temos os nativos com a sua ligação à natureza, temos o confronto inevitável e os heróis que nele emergem. Ideal para estrear depois do fim da Cimeira de Copenhaga.

Isto tudo para chegar ao que é de facto mais interessante no filme, a questão da tecnologia.

É à partida uma contradição insolúvel com o seu quê de irónico que Cameron precise da mais complexa tecnologia de síntese de imagem e de experiência audiovisual (incluindo o 3D) para fazer um filme sobre o confronto entre a natureza e a sua destruição por meios tecnológicos (grandes buldozers, tecnologia militar variada, imagens via satélite, simulações holográficas, de tudo um pouco).

A subtileza aqui é que a tecnologia especificamente militar, aquela que é realmente agressiva, não é particularmente futurista e é facilmente reconhecível. Num universo onde se viaja para o futuro criogenizado, onde se cruza DNA humano e alienígena, onde todas as interfaces parecem derivadas do "Minority Report", os soldados continuam a ser fuzileiros de metralhadora em punho, voando em helicópteros um pouco mais sofisticados que os actuais, disparando mísseis e napalm. Mesmo as exo-armaduras mecanizadas existem há décadas no imaginário da Manga japonesa.

Do lado dos indígenas está a tecnologia que nos soa ao new age das redes: tudo ligado, pessoas, árvores e animais numa espécie de rede neuronal, mensurável em impulsos eléctricos e analisável por cientistas bem intencionados, um misticismo simultaneamente primitivista e futurista, uma espécie de Internet of Things - o Graal actual de todos os operadores de telecomunicações e fabricantes da respectiva tecnologia.

E note-se que a nossa tecnologia de comunicação tende para os gestos físicos, para a imersão sensorial, para o 3D, para o reconhecimento de voz, para uma naturalização e "invisibilização" que a tornarão verdadeiramente natural aos nossos sentidos.

E tudo isto é o nosso zeitgeist actual: o pânico ambientalista; o militarismo (no filme são usadas as expressões shock and awe, preemptive strike e fight terror with terror - parecem saídas directas da boca de G.W. Bush); o conceito de rede global e, a coroar tudo isto, uma tecnologia tecida na própria ontologia do filme, tão complexa e sofisticada que parece ela própria... uma nova natureza.

Vão ver. Não vale a pena ficar de fora deste tempo.