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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Hotel Memória.

Mesmo quem nunca foi a Nova Iorque, tem da cidade memória. Não sei se existe estatística, mas é das cidades mais mediaticamente representadas do mundo, seja por anónimos, seja na literatura, música, cinema, televisão. O caso em questão é literário e diz respeito ao "Hotel Memória" do João Tordo.

Depois de ler a frase de Paul Auster que abre o livro e de devorar as primeiras dezenas de páginas, apeteceu-me sinceramente arrumar o livro na gaveta das imitações. O personagem principal estudante de literatura, os amigos que com ele se cruzam, as mulheres (e homens) misteriosos, a paisagem urbana, os momentos de solidão, as referências culturais, as histórias dentro da história, tudo me parecia apontar para aí.

Contudo, se a inspiração é assumida, a experiência é diferente o suficiente para a leitura ser saborosa e viciante do princípio ao fim, sem pôr em causa a qualidade da escrita. Poderá argumentar-se que não basta acrescentar um fadista a uma história nova-iorquina para fazer dela uma história portuguesa e o argumento é válido, mas a música, o fado, a gravação perdida, o próprio Daniel da Silva desempenham sobretudo o papel de macguffin no lado policial desta história. Não interessam verdadeiramente, apenas como desculpa para colocar todo o restante elenco em movimento.

Toda a história é aliás muito Hitchcockiana, o homem comum apanhado no meio da intriga, apanhado, devorado e cuspido pela intriga. Só a meio da história me comecei a aperceber de que a cidade devorava de facto o narrador, o mastigava sem piedade por entre aquela familiaridade de postal ilustrado a que Nova Iorque convida. Esta visão de fora para dentro sobre a cidade e a sua dureza, mesmo que envolvida num tom Austeriano familiar ou se calhar por causa disso mesmo, conquistou-me, envolveu-me, impeliu-me. E que idade tem o rapaz? Tem futuro! Foi dos livros que li mais rapidamente nos últimos tempos.