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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A infância é um lugar estranho.

"O Sítio das Coisas Selvagens" pode, como muitos filmes, ser discutido de muitas maneiras. Sendo um filme que tem como personagem principal uma criança, pode adicionalmente ser discutido no contexto das histórias para crianças, dos filmes para crianças, do papel educativo e/ou moral que essa ficção pode ter. É uma discussão antiga que, sinceramente, não me interessa particularmente. Nunca achei que as crianças devessem ser tratadas como atrasados mentais e desde sempre os lobos (e não os comunistas) procuraram comer netinhas ao pequeno-almoço, juntamente com as respectivas avozinhas.

O filme de Spike Jonze é uma delícia. É percorrido por uma honestidade emocional sem grande compromisso, no confronto das emoções cruas da infância com a adolescência, com a idade adulta, com a imaginação e a vontade de crescer mas nunca deixar o conforto de uma mãe que nos alimenta ao chegarmos a casa.

Ser criança não é simples, sobretudo quando, como Max, o que nos entretém é sobretudo a imaginação solitária e alguma necessidade de atenção. Tudo isto, incrivelmente, estava já presente nas poucas páginas de Maurice Sendak em que o o filme é baseado, mas o verdadeiro triunfo é conseguir transformá-las num mundo encantado que nunca parece falso, dando mais densidade psicológica a meia dúzia de coisas selvagens de que acabamos por só poder gostar, como se fossem memórias que tinhamos esquecido de amigos com quem brincávamos em recreios distantes.

Mesmo numa era de inevitável efeitos digitais e mundos inventados, nunca tive dúvidas de que era este o cinema de que gostava, um cinema de personagens e emoções, de histórias em que a riqueza da imagem nunca se sobrepõe ao sorriso ou às lágrimas de Max.

E há a banda sonora de Karen O, claro, que tudo atravessa no tom certo. Ouçam lá.

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