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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Dias no feminino.

Passei uns dias a ouvir Ella Fitzgerald a cantar ao vivo em Hollywood no Crescendo e Jacqueline Du Pré a tocar violoncelo nas suas gravações para a EMI. Foram duas das melhores compras deste princípio de ano.

Ella é Ella e ao vivo, cantando, rindo, swingando, falando com o público, scatando, esquecendo-se das letras, acedendo a pedidos, está no seu absoluto melhor, acompanhada por Lou Levy no piano, Herb Ellis na guitarra, Wilfred Middlebrooks no baixo e Gus Johnson na bateria. A caixa chama-se "Twelve Nights in Hollywood" e está a par do "Sinatra at the Sands" como uma das grandes gravações ao vivo do final de uma era dourada de um determinado tipo de canção, de uma determinada forma de cantar.

A caixa de 17 CDs da senhora Du Pré, que inclui todas as gravações que fez para a EMI custa aqui pouco menos de vinte e quatro euros e os portes de envio são gratuitos, um grande negócio. Do concerto de Elgar às suites de Bach, passando por Beethoven, Haydn, Brahms ou Falla, o repertório é vasto e o acompanhamento luxuoso. A seguir verei o "Hillary and Jackie", já agora.

A tudo isto se somaram os contos de Alice Munro em "Too Much Happiness". O conto é um género que ignoro com maior frequência do que devia. Quando bem escrito, quando genialmente escrito, como é o caso, tem uma dimensão de jóia, de economia narrativa, de prazer de linguagem que escapa muitas vezes aos romances.

Por falar em romances, li dois de seguida mais uma vez de uma mulher, Anne Michaels, uma canadiana que eu arrumaria na estante com Michael Ondaatje. Curioso como alguns dos meus escritores de culto são canadianos, se lhes juntar Douglas Coupland ou William Gibson, por exemplo. A escrita de Michaels radica na poesia e na história, em particular a terrível história do século XX. Diga-se que antes de escrever "Fugitive Pieces" e "The Winter Vault", os que li, foi sobretudo poetisa e deliciei-me também com o seu volume "Skin Divers".

Acho aliás que ela está melhor na poesia, que transparece na sua escrita de emoções, sempre telúrica, mas que muitas vezes parece não carregar a suficiente tensão para aguentar um romance, uma história. Isto reflecte-se aliás na adaptação cinematográfica de "Fugitive Pieces", nunca distribuída cá, que eu saiba. O mal pertence ao passado, à história, a dor é consequência do amor e vice-versa, o Homem vive da sua interacção com a Terra e a nossa capacidade para a poesia sustenta-nos. Se na escrita, Michaels consegue fazer estes elementos brilhar, em cinema é preciso um génio maior.

Bom.

Passados estes dias, mergulhei finalmente no "2666" do Bolaño, que já ia sendo tempo, mas ainda vou no princípio, isto é, na página 250.