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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O "2666" merece um post.

Não chego a perceber onde acaba o génio e começa a loucura ou vice-versa, mas consta que é frequente na criação. A estrutura caótica do romance magno do Bolaño - não é tomando caos por desorganização, mas sim no sentido matemático de sistema complexo, dinâmico, instável - deixa-me com a sensação de que ele poderia crescer até ao infinito. Não digo transformar as mais de mil páginas em outras tantas, acrescentando "partes" à história, mas sim num aprofundar de cada momento, de cada situação, de cada lugar e personagem, num infinito de palavras, frases, parágrafos de páginas circulando sem sentido visível entre o texto, o mundo e a imaginação do seu criador.

Não me parece que esteja ao alcance de muitos autores hoje este mergulho sem limites entre vida e escrita, entre existência e história e talvez o único fim possível para esse anel de Moebius seja a morte, ponto final inevitável em todos estes substantivos, em todas as frases por nascer.

O que me fascina mais é que a torrente de criação surge com frequência no texto embrulhada numa perfeição de estilo, ao fascínio da história e da sua progressão demente soma-se um domínio da linguagem e da sua beleza que me parece raro de encontrar. A propósito disto, num autor totalmente diferente, vale a pena este artigo do The Guardian sobre o Don De Lillo, um ourives da prosa.

É improvável que algum dia me consiga comprometer com a escrita da forma que estes, escritores, conseguem, mas fugindo entre as gotas da chuva e o correr do dia, vou tentando o acesso a essa loucura.

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