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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Sobre a guerra.

Ando a escrever sobre um fotógrafo. Dito assim é redutor, mas é a natureza das sínteses. Esse meu fotógrafo ficcional inicia a sua carreira como repórter de guerra. A natureza da guerra preocupa-me também então.

Quando era mais novo, o lado abstracto da guerra, da geopolítica, das manobras, dos movimentos de tropas, o lado de jogo da guerra fascinava-me. Literalmente, gostava muito de jogar jogos de guerra no meu velhinho Spectrum. Fascinavam-me também as suas máquinas e construía pequenos modelos de aviões, tanques e veículos que tais.

Hoje compreendo como infantil esse fascínio e lamento que seja comum ele prolongar-se pela idade adulta, embora lhe encontre sublimações por exemplo na gestão. Hoje vejo de outra maneira as raízes e consequências da violência e a sua forma mais organizada, a guerra. Diz o Cormac McCarthy no brilhante "Sunset Limited" que ando a ler: "The things I believed in don't exist anymore. It's foolish to pretend that they do. Western Civilization finally went up in smoke in the chimneys at Dachau but I was too infatuated to see it. I see it now."

Já não sei como lá fui ter, mas ao ler este texto de Jonathan Jones no The Guardian sobre o quadro Alexanderschlacht de Albrecht Altdorfer, lembrei-me dessa visão desmaterializada da guerra que tive em tempos e a que agora contraponho outra. No quadro, tudo é épico, distante, surreal, massas indistintas sob um céu inexistente. Confesso que também andei a ler o William T. Vollmann e a edição resumida do brilhante "Rising Up and Rising Down" (são só 752 páginas) e algumas coisas mais sobre o Holocausto.

A propósito do "meu" fotógrafo a certa altura: "Caras de pessoas que conhecera antes de morrerem, com quem trocara anedotas, a quem pagara uma ou outra cerveja, agora atiradas para valas comuns a céu aberto, olhos baços sem vida contemplando céus muito azuis. Revivia cenas de combate e violência, guerrilheiros correndo sob fogo cruzado, bombas, rockets, minas, snipers escondidos pelo mato ou pelos prédios, cenas para as quais se lançara com a sua máquina como se ela o tornasse imortal ou invisível." ou ainda "Vivera sete anos atordoado pelo silvo constante de uma bala, de uma explosão, atravessando cenários de guerra, mas apenas agora, ao abrigo da sua cidade de sempre, se sentia atormentado por aquelas mortes. E enquanto se tentava lembrar dos nomes dos lugares, das pessoas, de volta à cama do seu quarto de hotel, a consciência derivava para o sono, para os sonhos onde havia esses vivos a desintegrarem-se e também já os restos dos mortos, os seus ossos, o cheiro fétido da sua decomposição."

Bom, chega de Josef Leitz e fiquem com o quadro de Altdorfer que dá pesadelos a Jonathan Jones (cliquem para ver ao pormenor):