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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

1981

Esta história começa com um telefonema em 2007, quando a minha editora me informou que a revista "Os Meus Livros" tinha convidado o escritor Júlio Moreira para "apostar" num autor desconhecido e ele me tinha escolhido a mim. Encontrei-me com ele duas vezes, ambas ao fim da tarde no aconchego do Pavilhão Chinês e em ambos os casos a conversa foi agradável e surpreendente. Dessas conversas, uma frase marcou-me, talvez pelo tom de melancolia em que foi dita: "esses anos entre a invenção da pílula anticoncepcional e a descoberta da SIDA, entre os anos 60 e o princípio dos 80, foram anos de liberdade sexual como nunca houve antes nem nunca voltou a haver".

Creio que essa frase acabou por encontrar o seu lugar algures no "Regresso a Barcelona" e influenciar em parte a sua escrita e a sua história. Redescobri-a recentemente, pela pena de Edmund White, no seu livro autobiográfico "City Boy", centrado nos anos 60 e 70, que passou sobretudo em Nova Iorque, com incursões por Veneza, São Francisco e Paris. Na parte final do livro, White menciona o seu encontro com o fotógrafo Robert Mapplethorpe e com Patti Smith. De Patti Smith é o livro "Just Kids", que cobre precisamente o período nos anos 60 e princípio dos anos 70 em que veio viver para Nova Iorque e encontrou Mapplethorpe, seu companheiro na altura e amigo até morrer de SIDA a 9 de Março de 1989.

Aqui ao lado está a fotografia de Robert Mapplethorpe para a capa de "Strange Angels" de Laurie Anderson. Tanta gente cuja arte aprecio junta...

Ambos os livros estão cheios de figuras que hoje são quase mitos - o primeiro mais de um certo universo literário, o segundo mais do mundo da música - e de lugares que são eles próprios parte de uma mitologia nova-iorquina: Greenwich Village, o Chelsea Hotel, Washington Square.

O tom dos dois livros é diferente. Smith desenha-se como uma artista em descoberta e atribui esse papel também a Mapplethorpe, embora o percurso dele o afaste inevitavelmente do dela. White é mais ácido, mais explícito e eu diria que a morte por doença de muitos que o acompanharam nesses tempos o deixou talvez mais cínico em relação ao romantismo da descoberta artística. Ele próprio é seropositivo. Em ambos os casos, vale a pena ler com atenção, são documentos incontornáveis de uma época.

O que me leva ao ano de 1981. Há anos assim, em que um tempo acaba e outro começa e um ou mais acontecimentos se somam para assinalar essa mudança do zeitgeist.

Em 1981, Reagan toma posse como presidente da república dos EUA. Ao idealismo dos anos 60, ao excesso dos anos 70, prepara-se para suceder a cupidez puritana dos anos 80. O atentado de que é alvo dois meses depois de tomar posse, marca-o como herói dessa mudança. No dia a seguir a tomar posse, sai da fábrica o primeiro Delorean, o carro do "Regresso ao Futuro", símbolo máximo dessa nostalgia que salta por cima dos anos 60 e 70 para voltar aos 50.

Também em 1981, voa pela primeira vez o Space Shuttle. O idealismo de Kennedy que levou o homem à Lua é substituído por uma visão mais prática de um vaivém reutilizável. A 13 de Maio, o Papa João Paulo II sofre também ele um atentado a que sobrevive. Atribui essa sobrevivência a um milagre de Fátima e traz também Portugal para os anos 80 e os seus símbolos.

Em 5 de Junho de 1981, o Centre For Disease Control de Atlanta assinala os primeiros casos de SIDA nos Estados Unidos. Nesses primeiros meses, o síndrome é equiparado a uma praga bíblica que castiga os excessos dos anos anteriores. É uma doença dos homossexuais e esse preconceito vai ajudar ao seu crescimento exponencial.

Em Julho casam Carlos e Diana e o mundo deixa-se ir em contos de fadas. Em Agosto estreia-se um novo canal de televisão, a MTV.

Em Setembro, Simon & Garfunkel marcam o fim de uma época, com um concerto no Central Park para meio milhão de pessoas. Em Novembro, a IBM marca o início de uma outra época, com o lançamento do IBM PC. Nesse mesmo mês, Ali combate pela última vez. E perde.

Raras vezes na história, um ano marcou de forma tão contundente fins e princípios, mudanças políticas, culturais, morais, tecnológicas. Vinte anos mais tarde, as torres gémeas caíam.

E agora? Em que época estamos nós? Como podemos ler a nostalgia de Edmund White e Patti Smith? O que nos resta ainda como luta?