Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti

Lembro-me de José Duarte (acho que foi ele) comentar que podíamos finalmente ter uma relação com os nossos standards como os americanos tinham há décadas com os seus, a propósito da versão de "E Depois Do Adeus" no álbum "Sempre", de Carlos Martins. Continua a ser um grande disco feito por grandes músicos e ao piano estava Bernardo Sassetti, que se juntou agora a Carlos do Carmo para um projecto único de colaboração.

Não gosto, por estes dias, de falar muito sobre música, prefiro-a como um prazer pessoal, mas a crítica da Time Out leva-me a dar uma opinião. E incomodou-me em particular a parte em que se fala do "estigma de um álbum de covers" (cito de cor). Parece-me que se ignora a tradição jazzística do standard, da sua re-interpretação, do "inventar" de novos standards (ouça-se por exemplo Brad Mehldau a tocar Radiohead ou Yaron Herman tocando... Britney Spears). Mais, ignora-se a tradição fadista de um repertório e da interpretação e redescoberta permanente desse repertório, mais clássico ou mais recente.

Não, este não é (quase integralmente) um álbum de originais e sim, pode achar-se Bernardo Sassetti mais brilhante do que Carlos do Carmo, por uma questão de gosto ou pela constatação simples de que estão em momentos diferentes da sua carreira. Eu sou, pessoalmente, um "Sassettófilo", mas reconheço a importância e o valor de Carlos do Carmo no panorama do fado português. É uma figura incontornável que nos ajudou muitas vezes a perceber que o fado não é "um negócio de direita", como dizem os Deolinda.

Há na escolha do repertório uma vontade de re-descobrir standards de alguns dos nossos geniais compositores de música popular do final do século passado, de Fausto Bordalo Dias a Zeca Afonso, passando por Sérgio Godinho e Rui Veloso/Carlos Tê. "Lisboa Que Amanhece" e o "Porto Sentido" são particularmente bem escolhidas e interpretadas, homenagens em contraponto a duas cidades como raras vezes existiram na música popular portuguesa. Há também, calculo, gosto pessoal em interpretar "Avec Le Temps", "Quand On A Que L'Amour" e "Gracias A La Vida". Todas elas na mesma tradição musical, contribuindo para a coerência do projecto.

Tudo isto para dizer que o resultado final é, para mim, um agradecimento a Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti, não só por terem encontrado tempo para colaborar e gravar este disco, mas sobretudo por terem decidido partilhá-lo connosco.

Fica aqui o clip de "Talvez Por Acaso", letra de Manuela de Freitas, música de Carlos Manuel Proença.