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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

José e Pilar

Estreia hoje o filme do ano, pelo menos até agora e na minha modesta opinião. Ainda por cima é um filme português e para além disso, um documentário. O filme é "José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes e tive oportunidade de o ver já duas vezes. Representa para mim tudo o que o cinema deve ser e é exemplar daquilo que o cinema português é e pode ser.

Portugal é um país que mal sabe ler, de orgulhos difíceis e mais dado a pompas vácuas do que substanciais, um país que vai pouco ao cinema e prefere o que passar por realidade na televisão e o passeio pelo centro comercial. Quase mentecaptos. Mas Portugal é também o país de Camões, Pessoa, Saramago, de Maria João Pires e Siza Vieira, de Paula Rego, nomes que, felizmente, encontraram lugar no mundo para além dos limites do nosso rectângulo.

"José e Pilar" não é só a comovente história de amor entre um homem tímido e difícil e uma mulher de armas do país do lado, é a história de amor de um planeta por um escritor, deste pelas palavras e pelos livros, pela vida, preso na contradição de não temer a morte enquanto a sente aproximar-se. Pilar, que chegou tarde (mas não demais). Quantos livros ainda para escrever no tempo que resta? O "continuar", a falta de "tempo", a fundação, o futuro na ausência.

Nada disto chega para fazer deste o filme do ano, porque pode não se compreender nem gostar de Saramago e continuar a amar este filme. É o cinema nas suas dimensões mais puras, a visual, a da história, a da emoção, a do olhar e do ouvir, do lugar da câmara e de quem a maneja que estão em cada momento destas duas horas depuradas das duzentas e quarenta filmadas. A esse nível, o que interessa a ficção e o documentário? Interessa a brilhante utilização da matéria do cinema.

Bom, na verdade preferia não falar tanto. Na verdade preferia que fossem ver o filme, que me fizessem esse favor.

Aproveitem e vejam também a pequena entrevista com Pilar e Miguel que o SAPO fez: