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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Manipulação.

Sempre me incomodaram um pouco as críticas a filmes, livros, música, seja o que for, que usam como argumento a acusação de que o autor pretende manipular o espectador, leitor, ouvinte. Lars Von Trier ou Michael Haneke, por exemplo, são frequentemente acusados disto. O "Inception" do Christopher Nolan foi até algures acusado de "fascista" (já não me lembro onde).

Eu que escrevo, estou sempre a tentar manipular o meu leitor, a começar por mim mesmo. Para mim a matéria da criação é plástica e no processo da sua moldagem está sempre a nossa intenção e a intenção de quem nos lê. É claro que me incomoda se a estratégia e os mecanismos da manipulação não funcionam e me deixam indiferente. E esse não funcionar pode querer dizer que são banais, mal construídos, vulgares, repetitivos, etc. etc.. A literatura está cheia disso,  de "estilos", "formas", "soluções" e "géneros" que são repetidos à exaustão porque supostamente "funcionam". Mas mesmo entre os que funcionam mesmo, há os mais criativos, inteligentes e originais e há os aborrecidos. Repare-se que nem sequer me chateia saber que estou a ser manipulado. Até gosto. Mas que a coisa seja bem feita, por favor. Não é também para isso que serve a criação?

Em fotografia também, antes que me esqueça. Aliás, em fotografia, o objectivo principal do fotógrafo sempre foi e continua a ser manipular de alguma forma aquilo que vê, de forma a que se revele num enquadramento, num instantâneo, em qualquer coisa de específico e, de preferência, único. E na publicidade, claro.

A essência da publicidade é a manipulação. Só que, mais uma vez, há muitas maneiras de fazer a coisa. Esta longa introdução serve só para colocar aqui esta curta de nome "Apricot" que Ben Briand fez para a Nespresso. Ben é um escritor, fotógrafo e cineasta australiano - a fotografia que ilustra este post é dele. O filme ganhou o "Community Choice Award - Best Narrative Award" votado pelos utilizadores do Vimeo.


APRICOT — A Short Film by Ben Briand from Moonwalk Films on Vimeo.


Já agora fica também um exemplo português, mais pobre de orçamento e diálogo, mas com as mesmas premissas de manipulação: boy and girl, soft focus, warm colors. Foi realizado por Rui Vieira e tem no elenco Ângelo Rodrigues e Erika Oliveira. Quase consigo imaginar um briefing conjunto, seja para vender café ou telemóveis.