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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Aquiles sobre Clara

Eu e ela, noite fria, há muitos anos, há quantos anos? (Fria como é por vezes fria na Primavera em Lisboa, muito pouco, a precisar de casaco apenas, pressa nenhuma.) Passeávamos entre carros e prédios, descendo do Rato para Santos, chão maltratado, aceleras e despistados, o que há em Lisboa; mas sentíamo-nos herdeiros do amor do mundo, todo o brilho do mundo; vinha entre as folhas jovens das árvores, candeeiros coados tremeluzentes, vinha de corações como os nossos, agitados como janelas abertas. Não interessava de onde vinha. No meio de todo esse brilho, o que eu lembro é a curva das suas pestanas, a cabeça sacudida para trás, de prazer, um prazer explosivo e infantil, nada de sexual. Não, não, nada disso, naquele momento só como se fosse Natal. Éramos crianças, aquecidos por aquele brilho naquela rua.
- Deixa-me dar-te um beijo na ponta do nariz.
- Na ponta do nariz?
- Gosto do teu nariz!
- Que falta de pontaria.
- Parvo.
- Parva.
- Tonto.
- Gosto das tuas pestanas.
- Frio, frio. Cada vez mais longe.
- Um beijo nas pestanas?
- Tonto mesmo.
Na boca.